Festival do Folclore - Olímpia-SP
Mitos e Lendas - Folclore - Portal Oficial do Festival do Folclore de Olímpia-SP
 
ANDRÉ LUIZ NAKAMURA

Desde sempre a humanidade se atormenta com as clássicas indagações pra as quais não houve e ainda não há respostas satisfatórias: de onde, por quê e para quê viemos? Para onde vamos?

Diante dos fenômenos da vida que lhe eram totalmente inexplicáveis, a criativa imaginação do homem primitivo atribuiu a autoria e o comando do universo, bem como sua própria existência nele, a fantásticas criaturas, a entidades sobrenaturais (a que futuramente se chamariam mitos).

Entre nós, é claro que os primitivos habitantes das terras que posteriormente se denominariam brasileiras, quais sejam, os índios, também daquele modo agiram ao se defrontar com o mesmo drama existencial.
Destarte, a exemplo de outros povos, também eles povoaram as matas, os rios, as montanhas, o mundo, com entes sobrenaturais, dando nascimento, assim, aos mitos brasileiros (juntamente com as duas outras culturas que depois formariam a brasileira).

O chamado pensamento mítico representaria, então, o estágio infantil da mentalidade humana na sua sempre ascensional trajetória evolutiva.
Lévi-Strauss, no entanto, em “O Pensamento Selvagem”, delineou uma “analogia formal” entre o pensamento mítico e o pensamento científico, argumentando que aquele seria a “metafórica expressão” deste. A civilização, desse modo, teria sido edificada através dos mitos.

Mesmo na atualidade, a despeito de ter a ciência progredido e elucidado alguma parte dos muitos mistérios da vida que assombram a humanidade, os mitos continuam a surgir e a renascer nas reminiscências populares, haja vista que a mencionada perplexidade que acometia o homem primitivo representava não só a crise existencial da humanidade diante do mundo, mas também a do homem diante de si próprio. Essa, aliás, certamente permanecerá, em maior ou menor grau.

Os segredos da alma humana, os sentimentos, medos, desejos, paixões, raivas, a luta contra selvagens instintos (o lobisomem que habita o homem), enfim, tudo aquilo que se encontra no interior da alma humana, e que a razão não é capaz de explicar, exterioriza-se e reflete-se nos mitos.

MITO – CONCEITO

Tendo em vista o que expusemos no tópico anterior, poderíamos conceituar “mito” como sendo configurações de entes fantásticos e sobrenaturais produzidas pelo imaginário popular em virtude da necessidade de se buscar explicação para a existência do universo e da própria humanidade, bem como para o que se encontra no interior da alma humana sem elucidação racional.
A essa motivação não se pode deixar de acrescentar também o prazer e a necessidade do homem de contar e ouvir histórias, pois o sonho e a fantasia, com efeito, fazem parte de seu espírito.

Ressalte-se, ainda, que mito também pode se referir a objetos, lugares e épocas, tendo ainda o sentido de utopia, segundo o Aurélio.
Exemplifiquemos parte de tal acepção com o chamado “Mito da Idade do Ouro”, “o mito da perfeição do princípio”, presente em quase todas as mitologias, segundo o qual no início dos tempos, quando da criação do homem, este vivia usufruindo uma felicidade plena.

O “Mito da Idade do Ouro” é também “futurizado” de acordo com algumas crenças no “fim dos tempos”. Um novo mundo, com uma nova humanidade, então, surgirá (os mortos também voltarão), para viver uma vida paradisíaca, sem dores, sem sofrimento, sem tristeza, sem morte.
Vejamos mais alguns conceitos de mito:
Consoante o escólio de Leda Tâmega Ribeiro (“Mito e Poesia Popular”), “a palavra mythos, que originariamente significava ‘fábula’, ‘conto’, ‘fala’, ou simplesmente ‘discurso’, passou a ser usada em oposição a logos e história, vindo a denotar, então, ‘aquilo que não pode realmente existir”.
“(...) A palavra grega mythos referia-se fundamentalmente à atividade de contar e não ao conteúdo daquilo que é contado”.

O referido termo, prossegue a autora citando Mircea Eliade, “tornou-se em nossos dias, de certa forma, equívoco, podendo tanto significar ‘ficção’ ou ‘ilusão’, como ‘tradição sagrada’, ‘revelação primordial’ ou ‘modelo exemplar’”
“O mito é narração alegórica, que em geral procura explicar acontecimentos anteriores aos fatos históricos” (Veríssimo de Melo, “Folclore Brasileiro: Rio Grande do Norte”).

“Mito é uma narrativa de um fato que transcende a natureza humana. Seus personagens são entes sobrenaturais (...) Nasceu da necessidade do homem de explicar o mundo em que vivia e de sua própria presença nele (...) narra as façanhas de entes sobrenaturais, graças aos quais passou a existir uma realidade ou parte dela, como, por exemplo, uma ilha, uma espécie animal, vegetal ou mineral, um comportamento humano, uma instituição, etc.” (Antônio Henrique Weitzel, “Folclore Literário e Lingüístico”).

“O mito na história da civilização é um conjunto de lendas (grifamos) e narrações que referem personagens e acontecimentos anteriores aos fatos históricos conhecidos e que, por isso mesmo, se entretecem com episódios maravilhosos e fantásticos” (Luís da Câmara Cascudo, “Dicionário do Folclore Brasileiro”).

Vale lembrar que atualmente o termo é também usado para tratar do fenômeno de popularidade criado em torno de astros e estrelas do cinema e da televisão, a que alguns chamam “mitos fabricados”.

MITOS BRASILEIROS

Os mitos que se configuraram no Brasil, a exemplo do que se deu com o próprio povo brasileiro, ostentam também a forte marca da miscigenação, pois são eles provenientes de diversas culturas, sendo três suas fontes primordiais: os portugueses, os índios e os negros.

Para a grande maioria dos autores, foi prevalente a influência do colonizador português, que trouxe consigo mitos de quase todo o acervo europeu.
Raros, então, os mitos que por aqui se conservaram “originais” e nenhum o que se manteve imune à influência lusitana.

Em contrapartida, também os Lobisomens e Mulas-sem-cabeça que os portugueses para cá trouxeram adquiriram nestas terras cores locais e tropicais, “abrasileirando-se”.
Em segundo posto, na ordem de influência apontada pela maior parte dos folcloristas, encontram-se os de origem indígena, os primeiros a serem catalogados pelos portugueses, logo se confundindo os mitos de ambas as origens.

Os negros escravos, naturalmente, também para cá vieram acompanhados de seus mitos, os quais tinham grande força religiosa, requerendo rituais, danças, oferendas, etc. Os relatos sobre seus entes fantásticos que regem as forças da natureza certamente influenciaram na configuração dos nossos mitos.

No entanto, tomando-se a acepção folclórica do termo, i.e., sem implicações religiosas, são poucos os mitos de origem africana. Câmara Cascudo realça que é no ciclo da angústia infantil que mais se faz notar a influência negra na formação da mitologia brasileira:
“Rara será a aparição assombrosa que ainda mais terrível não ficasse através dos lábios africanos (...) O papel das ‘tias’ e dos ‘tios’ portugueses aqui lhes coube (...) A nossa Scheherazade foi a Mãe Preta...” (“Mitos Brasileiros”).
Para Théo Brandão (“Folclore de Alagoas”) “nossos mitos são restos, reelaborações, cruzamentos superposições dos mitos dos povos formadores da etnia brasileira”.

CLASSIFICAÇÃO

Alguns autores estabeleceram uma classificação para os mitos brasileiros.
O insigne folclorólogo Luís da Câmara Cascudo distribuiu-os em “primitivos e gerais” e em “secundários e locais”. Dentre os primeiros estariam o Saci-Pererê, o Jurupari, o Boitatá, o Lobisomem, a Mula-Sem-Cabeça, o Curupira, o Anhangá, Botos e Mães d´Água...
Todos os demais que constam do rol que logo apreciaremos seriam “secundários e locais”.

Cascudo (em “Mitos Brasileiros”) apresenta ainda mais duas subdivisões, a que denominou “Ciclo da angústia infantil” (Cuca, Mão-de-Cabelo, Chibamba, etc.) e “Ciclo dos monstros” (Capelobo, Gorjala, Mapinguari, Bicho-Homem, Labatut, Pé-de-Garrafa, Quibungo, etc.).
Merecem destaque esses “ciclos”.
Nos da angústia infantil, a exemplo do que se pretendia com as narrativas de contos de fadas, percebe-se neles um nítido propósito disciplinar.
Com relação ao ciclo dos monstros, bem a propósito, o célebre folclorólogo fala sobre o “ataque inesperado e predatório de gente de fora” e uma conseqüente reação mental dos índios frente ao inimigo estrangeiro e invasor, cuja imagem é por aqueles deformada, transformada em monstro.

Alceu Maynard Araújo (em “Folclore Nacional”), seguindo Basílio de Magalhães (em “Folclore no Brasil”), ordenou-os em primários e secundários.
Os mitos primários são: saci, mula-sem-cabeça, lobisomem, curupira, caipora.
Os secundários, segundo o mesmo autor, compreendem gerais: boitatá, mãe-do-ouro, minhocão, etc., e regionais: corpo seco, porca de sete leitões, mão-de-cabelo, cavalo branco, etc.

Entendemos que os vocábulos “primitivos” e “primários” foram utilizados pelos referidos autores com a acepção de “principais”, de forma a opor-se a “secundários” (usado por ambos os folcloristas), podendo-se deduzir que seriam os primeiros os mais conhecidos.

Nesta modesta abordagem do assunto, não estabeleceremos nenhum tipo de classificação pois, na atualidade, em vista do recrudescimento dos meios de comunicação, com inclusão da Internet, essa se torna uma tarefa difícil.

LENDA

Proveniente do latim legenda, do verbo legere = “ler” (e, por extensão, “algo digno de ser lido”), era esse o termo usado para designar as histórias sobre santos que eram narradas nos refeitórios dos conventos ou em cultos religiosos com o escopo de se estabelecerem edificantes referenciais com que se deveriam identificar os ouvintes.

Não quer isso dizer, porém que ensejou o advento das lendas; outros povos, primitivos, também tinham seus relatos fantásticos (a que depois se denominou “lenda”) sobre eventos originalmente verdadeiros, ou considerados como tais; sobre heróis que podem ou não terem realmente existido; ou sobre feitos “heroicizados” pela imaginação popular.

A lenda é também considerada como a “imaginação da História” tendo em vista que esta, em sua “infância”, não foi nada além de uma sucessão de lendas oralmente transmitidas de geração a geração, com o sempre presente gosto popular pela fantasia.

Com o passar dos tempos, o sentido do vocábulo se foi ampliando, de maneira a abranger outras formas de narrativa, como veremos.

LENDAS – CLASSIFICAÇÃO E CONCEITO

Costumam classificá-las em pessoais, locais, episódicas e etiológicas.
A primeira espécie, a das “pessoais”, subdivide-se em heróicas (que versam sobre figuras históricas); hagiográficas ou hagiológicas (sobre santos) e anedóticas (sobre pessoas pitorescas).

As heróicas são aquelas que enaltecem com as cores da fantasia os feitos de figuras históricas. São heróicas, por exemplo, nossas muitas lendas sobre os bandeirantes cujas andanças, desbravando sertões, cativando gentios, descobrindo minas, ensejavam e divulgavam muitas lendas.

Merecem destaque as hagiográficas ou hagiológicas. Inúmeros são os exemplos de lendas brasileiras sobre santos que deliberadamente teriam dado origem a muitas cidades e bairros, sendo-lhes os padroeiros. Suas imagens recusavam-se a sair no local que designaram para seus santuários, como dizem ter ocorrido na cidade de Nazaré Paulista.

Hélio Damante (“Folclore Brasileiro – São Paulo”) dá outros exemplos:
“O encontro de imagens, caso do Bom Jesus de Iguape, do Bom Jesus de Pirapora e de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, mesmo se tratando de fatos historicamente comprovados, sempre aguçou a imaginação de devotos e deu origem a um particularizado lendário, enriquecido pela iconografia dos milagres e ex-votos, sonhos e visões”.

As locais tratam de temas ligados a uma determinada localidade, versam sobre rios, montanhas, lagos, cavernas, etc. São também denominadas tópicas e geográficas.

As episódicas dizem respeito a eventos e acontecimentos de interesse de uma localidade.
As etiológicas, que buscam explicar a origem de plantas, de animais, se sobrelevam nas fantasiosas narrativas indígenas sobre a origem da mandioca, do milho, da lua, etc.

Essa classificação, com base na apresentada por Antônio Henrique Weitzel “Folclore Literário e Lingüístico”), fornece elementos para alguns conceitos de “lenda”. Vejamo-los:
“A lenda é uma narrativa em torno de um fato real, com uma explicação ou interpretação de uma figura, uma realidade, um acontecimento histórico, em torno da qual a fantasia cria uma série de coisas irreais e até mesmo inverossímeis” (Renato Almeida “Inteligência do Folclore”).

“A lenda é a imaginativa sobre a realidade, realidade que pode ser o homem, o vegetal, o animal, os elementos da natureza, os acidentes geográficos, etc. Reveste a vida dos santos, dos heróis e dos bandidos; explica a razão do que vê e não compreende; aponta o que acredita ser a origem das coisas e dos fenômenos” (Maria de Lourdes Borges Ribeiro, “Folclore”).

No entanto, cumpre-nos acrescentar que o termo “lenda” não é usado apenas para significar “narrativa fantasiosa sobre a realidade”. Relatos sobre seres e fatos inverossímeis são também chamados “lendas”. Há fantásticas histórias protagonizadas, por exemplo, por seres imaginários a que consensualmente se denominou mitos, como o Curupira, o Saci, a Mula-Sem-Cabeça. Existem, pois, “lendas” acerca de “mitos”.

São também chamadas de “lendas” histórias sobre tesouros enterrados, sobre fantasmas, almas penadas, e, bem assim – dentre outras – sobre corpos de “espíritos puros” (“corpos santos”) que, sepultados, se mantiveram intactos sob a terra, e que seriam encaminhados em sigilo ao papa pelo vigário, segundo crença popular, informa-nos Saul Martins (“Folclore Brasileiro – Minas Gerais”).

Na seara do folclore, se o vocábulo lenda fosse utilizado apenas para se referir a histórias fantasiosas sobre santos, heróis, bandidos, simples seria distingui-lo de “mito”. No entanto, a amplitude conceitual que se lhe deu, narrativa fantasiosa sobre a realidade, pode ter sido o ponto de partida para a confusão de mito com “lenda” (de que a seguir trataremos), visto que se passou a assim denominar tanto as fantásticas narrativas indígenas sobre a origem de plantas como aquelas que versam sobre a criação do mundo, sobre os fenômenos atmosféricos, etc.

MITO E LENDA – DISTINÇÃO

Considerando-se a polissemia dessas palavras, ou seja, os muitos sentidos que adquiriram, em virtude também das próprias definições que se lhes deram, ambos os vocábulos são freqüentemente confundidos.

1. A Enciclopédia “Mérito” registra que “o mito situa-se nos tempos ante-históricos e representa um ser ou episódios sobrenaturais, enquanto a ação das lendas decorre no mundo, entre os homens, não recuando para além da origem dos povos cristãos”.

Observe-se, porém, que renomados folclorólogos brasileiros, posteriormente, registraram histórias sobre a criação do mundo e da humanidade, cultivadas oralmente pelos índios (predecessores dos cristãos), às quais se denominaram e ainda se denominam “lendas”.

2. Em conformidade com a Enciclopédia Mirador, o que distingue o mito da lenda é a natureza dos relatos, observando que o primeiro “fornece o fundamento de toda a vida social e tem caráter religioso”. (...) “A lenda,’história falsa’, narra feitos de alguns heróis populares, explica particularidades anatômicas de certos animais, etc. ao passo que o mito, ‘história verdadeira’, se reporta à criação do mundo e dos homens, à origem da morte, etc”.

Nesse sentido, Antônio Henrique Weitzel (“Folclore Literário e Lingüístico”), ao falar sobre a ambivalência do mito em Folclore, apontando, de um lado, o fato (crença), e do outro, a narrativa (literatura oral) – que seria a forma explicativa do mito – argumenta que “esse ato de crença é que irá distinguir o mito de outras formas narrativas, como a lenda”.

Com o devido respeito, é possível divergir-se dessa distinção, pois – para exemplificar – as lendas sobre santos ou mártires, chamadas hagiológicas ou hagiográficas pelos estudiosos do assunto, também podem implicar crença nos relatos (e/ou crendice?) por parte dos narradores. A própria origem do vocábulo, como vimos, remonta a histórias sobre santos contadas em convento.

É oportuno lembrar, entrementes, que Théo Brandão (“Folclore de Alagoas II”), quando defendeu, anteriormente, a mesma idéia do citado folclorista, dizendo que “fica implícita a noção de que o mito aquele que o relata nele acredita inteiramente, enquanto assim não o considera aquele que o recolhe como tal”, acabou por deixar à vontade o uso dos controvertidos vocábulos ao expor sua conclusão:
“Daí que a mesma narrativa possa ser catalogada como mito, lenda, conto ou acontecimento real, segundo as convicções do narrador, do coletor ou do divulgador”.
Para o mesmo autor, a melhor definição dos mitos é a de que “são narrações em que se procura explicar a origem dos seres vivos e de certos objetos ou a origem de algum costume”.
Aleixo Leite Filho (“Noções de Folclore”) preleciona algo similar:
“(...) é uma criatividade da imaginação popular que tem como principal preocupação descrever a origem dos seres, dos objetos e dos fatos”.
O problema é que ele í está se referindo a lenda...

3. Vejamos outros pontos de vista considerando-se mais propriamente a acepção folclórica dos termos.
Segundo o Prof. Renato Almeida em “Curso de Folclore” (registra a Profª Palmira M. Degásperi Rodrigues, em “Mito e Lenda, Implicações Filosóficas”, anuário do 29º Festival do Folclore), consiste no fato de que o primeiro é “uma entidade fantástica, de pura imaginação”, enquanto a segunda “é uma narrativa fantasiosa sobre um fato real”.
Essa última distinção, data maxima vênia, também apresenta algumas imprecisões, pois contempla apenas uma das acepções de “mito” e “lenda”. O mito também é “narrativa”, i. e., sua conceituação compreende também essa característica (diversos folclorista, e os dicionários inclusive, a registram), e quanto à lenda, esta, como já dissemos, não significa apenas história fantasiosa sobre a realidade, visto que existem narrativas fantásticas sobre seres e fatos também imaginários, a que chamam “lendas”. Há lendas, por exemplo, sobre o Curupira, o Lobisome, a Iara, o Saci, etc., enfim, há lendas em torno dos mitos.

4. Câmara Cascudo, com o peso de sua autoridade no assunto, pontifica: “Muito confundida com o mito (a lenda) dele se distancia pela função e confronto. O mito pode ser um sistema de lendas, gravitando ao redor de um tema central, com área geográfica mais ampla e sem exigências de fixação no tempo e no espaço”.
Para o ilustre folclorista Basílio de Magalhães (“O Folclore no Brasil”) “do mito, - transfiguração dos seres e fenômenos naturais em corpos inaturais e forças sobrenaturais, totens e tabus, pelo eu projetivo do homem inculto, - foi que se geraram as lendas, os contos e as fábulas da tradição popular. O que caracteriza a lenda é a apoteose, ligada a proezas heróicas ou a maravilhas supra-sensíveis”.
Tendo em vista o escólio dos dois mestres, do qual se depreende o estabelecimento de uma espécie de hieraquia entre os dois fenômenos, na qual o mito ocuparia o alto posto, há quem o interprete “a contrário senso”, de modo que lendas também podem vir a tornar-se mito.
Um bom exemplo dessa interpretação extrai-se da consagrada telenovela “Roque Santeiro”, que foi recentemente reprisada pela segunda vez, tamanho o seu sucesso.
Numa etapa inicial, pode-se-ia denominar “lendas” as histórias que se contavam na fictícia cidade de Asa Branca sobre o mártir que morrera em defesa desta, lutando contra os bandidos que a saquearam. Paulatinamente, a reiteração e a progressiva expansão dessa lenda pelo Brasil, a que se acresceram milagres atribuídos ao “Roque Santeiro”, consagraram-lhe o status de mito (era apenas esse o termo que usavam na novela para aludir ao herói). O ponto central da trama era o fato de estar vivo o protagonista, o que culminou numa luta entre o Roque Santeiro vivo e o mito, que os poderosos da cidade, por interesses, queriam preservar – assim como a respectiva população, mesmo sem o saber, haja vista que precisa de mitos.

No entanto, ainda nos suscitam dúvidas os elementos distintivos apontados por Cascudo e Basílio de Magalhães, segundo os quais dos mitos derivariam as lendas, devendo-se considerar a maior abrangência dos primeiros em oposição à relativa “localidade” das últimas.

Qual seria o critério para quantificar o dimensionamento territorial que a propagação de algum relato fantástico precisaria atingir para ser chamado “lenda” ou “mito secundário local” (espécie mencionada por Câmara Cascudo em “Mitos Brasileiros”)?

O que impediria, por exemplo, qualificar-se como mito a “Moça de Branco” classificada como lenda por Alceu Maynard Araújo (“Folclore Nacional”)? Ou como lenda o “Cavalo Branco” catalogado como mito secundário pelo mesmo autor?
É válido observar também que a primazia que se pretendeu atribuir ao mito não se propagou com muita força, visto que popularmente o termo mais usual é “lenda”.
Como se pode notar, é de fato penoso traçar uma nítida demarcação entre os territórios conceituais do mito e da lenda, tendo em vista que a polissemia desses termos parece poder mobilizar uma faixa fronteiriça definitiva que se lhes tentasse traçar, fazendo com que esta se expandisse, alargando-se ora por um, ora por outro dos respectivos domínios semânticos de cada um dos indigitados vocábulos.

Como diria Amadeu Amaral (ao falar da impossibilidade de traçar linhas exatas entre provérbios e outros conceitos, como adágios, anexins, etc.), “a substância fluida escapa por entre as frinchas das frases que a pretendem conter”.

Um relativo consenso se verifica no uso de “mito” para designar o Curupira, o Saci-Pererê, a Mula-sem-cabeça, o Lobisomem, entre outros mais conhecidos, e de “lenda” para os relatos fantasiosos sobre a origem de seres e objetos, como as plantas (“lenda da mandioca”, “lenda do guaraná”, e outros exemplos que constam da coletânea que logo se verá). Não obstante, existem exceções. O próprio Câmara Cascudo, o grande luminar da Folclorística, em “Mitos Brasileiros – Cadernos de Folclore”, coloca “Mães d´água” entre os mitos primários. Entretanto, em “Dicionário do Folclore Brasileiro”, no verbete “Lenda”, usa a expressão “a lenda da Mãe d´água”... Na mesma clássica obra, e no mesmo tópico, fala da “lenda do Barba-Ruiva”; noutro (“Barba”), informa que “um dos mitos mais populares do Piauí é o Barba Ruiva”.

Na verdade, o que amiúde se vê é o uso de um termo pelo outro, às vezes indistintamente, como se quase sinônimos fossem.
No que refere aos folcloristas que se dedicam ao assunto, referindo-se lateralmente à matéria com alguns exemplos ou mesmo apresentando um repertório mais amplo, muitos deles costumam salvar-se empacotando tudo num só volume, no qual pregam o rótulo “Mitos e Lendas”, para identificar coletâneas desse jaez.

MITOS E LENDAS DO FOLCLORE BRASILEIRO

No estudo do Folclore, mitos e lendas são parte da chamada “Literatura Oral”, que compreende também contos, fábulas, poesia, parlendas, provérvios, frases-feitas, etc.
Apresentamos, a seguir, uma coletânea de mitos e lendas de diversos pontos do Brasil.

ALAMOA

Belíssima mulher, loura, misteriosa, olhos neons, que podem ser verdes ou azuis, cabelos lisos e compridos, vestida numa túnica muito transparente que chega quase a tocar o chão.

Assim a chamam porque loria é “alamoa” (alemã) para os habitantes de Fernando de Noronha, onde ela reside, nos altos picos dessa ilha.

À noite, surge nas praias, às vezes dança, nua, iluminada pelos raios que coincidem com sua aparição. Deslumbra, fascina, enche de desejo os desavisados que com ela se defrontam – e de medo os pescadores que já a conhecem e dela correm, espavoridos, pois o apaixonado que ao seu namoro não resiste e se põe a segui-la, nunca mais é visto.

Dizem que a Alamoa atrai com seu fascínio os que por ela se apaixonam, guiando-os para os picos da ilha, onde se transforma numa medonha caveira.
(A ela já se referiram como “lenda da Alamoa” e como “mito da Alamoa”, cf. “Alamoa”, Dicionário do Folclore Brasileiro, de Luís da Câmara Casculdo.)

ANA JANSEN

Assombração de uma mulher deformada pelo fogo que aparece de madrugada nas ruas de São Luís do Maranhão, conduzindo velozmente uma carruagem em chamas, puxada por enormes cavalos sem cabeça.

Conta-se que, quando viva, foi uma perversa mulher que sentia prazer ao fazer seviciarem seus escravos. Ela mandava arrancar os dentes e as unhas de crianças, filhos de escravos, que visse apanhando frutas em seus pomares. Ordenava que açoitassem cruelmente os escravos, às vezes por nenhum motivo.

Tendo em vista uma das distinções entre mito e lenda, segundo a qual esta última seria mais localizada – não obstante a dúvida quanto à extensão territorial que um ou outra precisa alcançar para ser classificado como tal ou qual – atrevemo-nos a dizer que se trata de uma lenda a história de Ana Jansen, pois na bibliografia consultada dela não encontramos referência; tomamo-lhe conhecimento por meio de informantes maranhenses por ocasião do Festival do Folclore de Olímpia/SP, realizado anualmente, em Agosto.

ANHANGÁ

Mito geral no Brasil, o Anhangá é criatura assustadora, um grande veado cujos olhos são lança-chamas. Ele representa um grande pesadelo para os caçadores, que, quando com ele se defrontam, ao tentarem baleá-lo, vêem seus tiros serem desviados em direção a entes queridos e pessoas amigas.
Sua fúria contra os caçadores se amplia quando as vítimas são animais lactantes ou filhotes que ainda precisam ser amamentadas.

Conta uma lenda que um índio perseguia implacavelmente uma veada que amamentava seu filhotinho, tendo sido este gravemente ferido por uma certeira flechada, e depois seguro pelo caçador, que a torturava, atrás de uma árvore, para atrair a veada com os gritos do filhote.

Caindo na emboscada, o animal é trespassado por uma mortífera flecha do índio.

No entanto, ao contemplas sua presa, o índio, desesperado, viu-se vítima de uma ilusão engendrada pelo Anhangá. Era o corpo de sua mãe.

ARRANCA-LÍNGUA

Macacão gigante que atacava os gados em Goiás, matando-os a murros e arrancando-lhes somente a língua, com a qual se alimentava.

Câmara Cascudo informa que a imprensa goiana, carioca e mineira registraram esse mito em várias matérias sobre os assombrados depoimentos de fazendeiros.

Regina Lacerda o catalogou como lenda em “Estórias e Lendas de Goiás e Mato Grosso”.

BARBA RUIVA

Piauiense dos mais famosos, o Barba Ruiva é um homem encantado, de barba e cabelos ruivos, alto, viril, muito branco, que faz morada na Lagoa do Paranaguá, onde teria sido jogado ao nascer, e salvo por uma mãe d´água, diz a lenda.

À margem da já mencionada lagoa, costuma ser visto a repousar, quando da água se farta, despertando a curiosidade das mulheres que lá vão lavar roupa – a cujas perguntas não responde.

Quando dele se aproximam percebem que, fora da água, sua barba, unhas e peito estão em brasa.

Correm, então, assustadas, enquanto ele as persegue querendo abraçá-las e beijá-las.

À vista disso, nenhuma mulher lava roupa sozinha às margens daquela lagoa.
Algumas gotas de água benta na cabeça do Barba Ruiva poderiam quebrar seu encanto.

Mas, apesar de ser ele inofensivo, ninguém ainda teve coragem.
(Registrado como mito e como lenda)

BICHO-HOMEM

Outro gigantesco antropófago, de um olho só, e que também só tem uma perna, cujo pé tem forma redonda, deixando pegadas que lembram o fundo de uma garrafa.

Pode derrubar até uma montanha com seus possantes murros e é capaz de beber um rio inteiro. Vive oculto nas serranias.

Mito corrente, em variantes, em quase todo o Brasil.
Muito se confunde com o chamado Pé-de-Garrafa. Alguns autores, aliás, registram-nos como sendo manifestações de uma mesma entidade: “o mítico Bicho-Homem é também chamado Pé-de-Garrafa” (Câmara Cascudo, “Dicionário do Folclore Brasileiro”).

Entretanto, alguns relatos sobre o Pé-de-Garrafa (df. p. 47), em que se lhe dão outras características, levam-nos a defender que sua existência, na imaginação do povo, se não era, passou a ser independente da do Bicho-Homem.

BOITATÁ

Um dos primeiros mitos registrados no Brasil, segundo nos informa Câmara Cascudo, é uma grande serpente de fogo que habita as margens dos rios, mata animais e lhes devora os olhos, vindo daí o seu intenso brilho.

Do tupi mboi, cobra, e tatá, fogo: cobra de fogo, o fogo em forma de cobra.
Há versões de que o Boitatá destrói com o fogo dos seus olhos, fazendo arder em combustão, aqueles que incendeiam os campos.

A aparição do Boitatá traz cegueira, loucura ou a morte. Para escapar de seu ataque, é preciso atirar-lhe algum objeto de ferro ou, então, ficar quieto, prender a respiração e fechar os olhos.

Dizem que se transformar nesse monstro é o castigo para purificar as almas dos amantes compadres que em vida traíam seus respectivos cônjuges, e daqueles que mantiveram relações incestuosas.

Explica-nos Theobaldo Miranda dos Santos (em “Lendas e Mitos do Brasil”) que “o mito do Boitatá parece ter se originado do fogo-fátuo ou santelmo, pequeno penacho luminoso, que aparece nos mastros dos navios devido à eletricidade, ou, à noite, sobre os pântanos e cemitérios, e que são apenas emanações de fosfatos e hidrogênios, produtos de decomposição de substâncias animais”.

Alguns autores, a exemplo de Crispim Mira (em “Terra Catarinense”), registram uma variante, dentre as inúmeras desse mito geral no Brasil, segundo a qual o Boitatá é um boi ou um touro “com patas como a dos gigantes e com um enorme olho bem no meio da testa, a brilhar que nem um tição de fogo”.

Amadeu Amaral (“Tradições Populares”) retrata essa variante como exemplificativa do fenômeno que se convencionou denominar “etimologia popular”, que designa “as alterações dos vocábulos por efeito de uma errôneas e imaginosa compreensão da respectiva origem”.

No caso dessa variante, a palavra “boi” (mboi), segundo o eminente folclorista, representou o elemento transformador do aludido mito.

BOTO SEDUTOR

Costumam dizer que a maior protagonista das lendas sobre a fauna amazonense, famoso em todo o Brasil, “ele, o Boto”, ao chegar a noite, transforma-se num belíssimo rapaz, alto, branco, robusto, bem vestido, mas sempre de chapéu para esconder o orifício que tem na cabeça, através do qual respira.

O Boto, quando toma a forma humana, comparece triunfalmente aos bailes, onde, com as moças ribeirinhas, conversa, bebe, dança, namora.
Conquistador infalível, adivinha os segredos, os pensamentos e desejos de suas “vítimas”.

Antes que amanheça, porém, ele se retira furtivamente, mergulha num rio, e torna-se de novo em boto.

Às vezes é implacavelmente perseguido ou cercado em emboscadas tramadas por homens enciumados, mas ele nunca se deixa apanhar pois tem um faro mais possante que o de cães caçadores e é rápido como um tiro.

Muitas mulheres costumam também a ele atribuir a paternidade de filhos espúrios e naturais, os denominados “filhos do Boto” (muitas vezes injustamente).

Noutras palavras, quando moças solteiras das populações ribeirinhas engravidam, dir-se-á que o filho é do boto.

Para finalizar, dentre algumas superstições acercado boto, lembremos esta: o olho seco de um boto, para os índios é poderoso instrumento de feitiços amorosos, depois de bem preparado, de acordo com os ritos do pajé-a pajelança, a feitiçaria amazônica. “Não há mulher que resista sendo olhada através do olho de um boto”.

(A ele já se referiram classificando-o como lenda e como mito)

CABEÇA-DE-CUIA

Homem magro, alto, que habita o rio Parnaíba, no Piauí. O nome deriva de sua cabeça que lembra o formato de uma cuia. A cada sete anos, devora uma mulher de nome Maria, e também meninos que brincam nas águas daquele rio. As mães, temerosas, proíbem seus filhos de ali nadarem.

Amaldiçoado por sua mãe, a quem muito maltratara, foi condenado a viver no mencionado rio durante 49 anos. Após comer sete Marias, retomaria seu estado natural.

CABOCLO-D´ÁGUA

Homem pequeno, musculoso, sisudo, da cor do cobre, com mãos e pés de pato, ele habita as águas do Rio São Francisco, aparecendo também em outras localidades fluviais. Atormenta os pescadores, vira embarcações, alaga cargas, provoca ondas, atrapalha pescarias, assombra, mata.

Para afugenta-lo é preciso fincar uma faca no fundo da canoa, ou então nela desenhar um signo-de-salomão.

(Vale registrar aqui a figura do CAVALO-DO-RIO, cavalo encantado que também habitaria o Rio São Francisco exercendo efetivamente o mesmo papel do Caboclo-d´água.)

CAIPORA

“É o Curupira tendo os pés normais. De caá, mato, e porá, habitante, morador”, segundo Câmara Cascudo.

Diz-se que é um caboclinho coberto de pêlos que anda sempre montado num porco-do-mato, protetor dos animais e inimigo dos caçadores (descrição mais comum).

As inúmeras versões sobre o Caipora possibilitam que se apresentem ele e o Curupira (sempre associados e confundidos) como manifestações transformadas de uma mesma entidade, ao mesmo tempo que se admite a coexistência de ambos.

Ruth Guimarães, por exemplo, em “Quatro Histórias do Curupira”, acrescente um parêntesis a esse título: “(Ou Caipora ou Caapora, o Pai do Mato)”.
Basílio de Magalhães (“Folclore no Brasil”), diz que o Curupira e o Caipora “constituem a mesma personificação do gênio das florestas.”.

Pessoalmente, acreditamos que quando não se trata de simples diversidade nominal, alguns mitos – se não tinham – passaram a adquirir identidade própria e personalidades distintas.

No presente caso, embora aparentemente se trate de simples diferença de nome, a figura do Caipora tal como aqui descrita já se criou efetivamente no imaginário popular, desvinculada da do Curupira.

CANHAMBORA

Homem negro, grandalhão, feio, com cabelos compridos até os pés. Às vezes é citado como tendo, ao mesmo tempo, forma humana e animal, metade cavalo e metade homem.
Ele é detentor de poderes capazes de ressuscitar os animais mortos pelos homens brancos, a quem persegue e agride.
Diz o povo que o Canhambora é assombração de escravos mortos a pancadas a mando de seus senhores, aos quais, posteriormente, volta para assombrar.
Mais conhecido em Minas Gerais e em São Paulo.

CAPELOBO

Criatura fantástica, com corpo de homem, cabeça de tamanduá ou de anta, é pés redondos.
Cães e gatos recém-nascidos são seu alimento principal. Mas ele também ataca humanos, “chupando-lhes o miolo”, ou seja, sorvendo-lhe a massa cefálica.
O ponto vulnerável desse monstro é o seu umbigo, através do qual pode ser abatido.
Ìndios muito velhos transformar-se-iam nesse monstro a que costumam chamar de Lobisomem dos índios.
Popular no Maranhão e na região do Araguaia.

CAVALO BRANCO

É um fogoso cavalo branco que em noites enluaradas é visto a pastar as relvas marginais do Valo Branco, em Iguape.
As mães sempre advertem suas filhas para não passarem pelas relvas marginais do Valo Grande porque o Cavalo Branco, ao ver uma moça virgem, faz com que ela caia naquelas águas e depois desaparece com ela.
Quando novamente há lua cheia ele volta para buscar outra moça para viver com ele no fundo do Valo Branco.

CAVALO DAS ALMAS

Segundo a Profª Palmira M. Degásperi Rodrigues (em “Mito, Folclore e Filosofia”), “é um animal miraculoso, que percorre as estradas à procura dos mortos recentes, que o esperam nos moirões das porteiras. As almas vão engarupadas nesse cavalo”.

CHIBAMBA

De origem africana, e conhecido em São Paulo e Minas Gerais, é um negro velho que se veste com folhas de bananeira, ronca como um porco e está sempre a dançar, em ritmo compassado.

Ele amedronta crianças choronas:
“Olha esse choro, que a Chibamba vem te pegar; ele papa criança”.
Acredita-se que ele foi um velho escravo que morreu no tronco, de tanto chicotada.

Informa-nos Rossini Tavares de Lima que ao Chibamba também se atribuía a fama de suprimir a dor dos escravos açoitados, atraindo-a toda para si quando o invocaram.

CHUPA-CABRAS

É relevante registrarmos esse, haja vista sua atualidade. “Novo ser mitológico”, segundo Hitochi Nomura.

O Chupa-cabras teria aparecido nas áreas rurais de municípios vizinhos à cidade de Campinas, por volta de 1997. Os habitantes da mencionada região atribuíram súbitas e misteriosas mortes de ovelhas e bois a uma estranha criatura notívaga.

O jornalista Paulo San Martin, na edição de 8 de junho de 1997 do jornal A Tribuna, de Campinas, relata na matéria intitulada “Chupa-cabras: agora ele se tornou histeria coletiva” que as marcas deixadas pelo bicho não se confundem com a de nenhum predador conhecido, não encontrando o seu ataque referência na zoologia e na biologia. “Praticamente todo o sangue é drenado e as feridas são inconfundíveis, como se tivessem sido feitas por garras longas e afiadas, semelhantes a navalhas. Em alguns casos são retirados, com precisão cirúrgica, órgãos e glândulas nobres”.

A história foi, na época, muito divulgada pelos meios de comunicação.
Uma babalorixá campinense, que afirma tê-lo visto, o descreve como uma criatura peluda apenas da cintura para cima, com poucos pelos nas pernas, e com focinho semelhante ao de um lobo.

COBRA GRANDE

Réptil repugnante que atemoriza o homem desde sempre, na ficção e na vida real, a cobra não poderia deixar de inspirar no Brasil esse monstro amazônico: A “Cobra Grande”, também chamada ~Boiúna~.

Gigantesca, de olhos que semelham enormes faróis, ela faz naufragar até mesmo grandes embarcações, devorando, após, a tripulação e os passageiros.

Na capital paraense, informa-nos Walcyr Monteiro, existe a crença de que essa cidade foi fundada sobre a casa de uma enorme cobra: “Se a Cobra Grande se mexe, Belém estremece”. “Se a Cobra Grande sair de seu lugar, Belém vai se afundar”(“Visagens e Assombrações de Belém”).

COBRA-JABUTI

Catalogada como lenda por Domingos Vieira Filho (“Folclore Brasileiro-Maranhão”) é um cágado que depois de tomado como bicho de estimação revela-se um monstro de cujos cascos saem horripilantes cabeças de cobras.

COBRA NORATO

Engravidada pela Cobra Grande, uma índia deu ä luz dois bebês encantados, que não tinham forma humana. Atirou-os no rio, a conselho do pajé.

Eram Cobra Norato (ou Honorato) e Maria Caninana. Esta era má, virara embarcações, matava náufragos e animais. Norato era bondoso e sempre procurava interceptar as maldades da irmã.

Certa feita, num duelo para salvar uma vítima da Maria Caninana, acabou matando esta última.

Assim, graças ä sua bondade, Norato adquiriu o dom de poder desencantar-se durante à noite, tornando-se homem bonito, simpático e elegante.
Nas ocasiões de festa nos povoados ribeirinhos, Norato deixava seu couro de serpente e ia bailar com as moças.

Ao amanhecer, porém, retomava a forma de serpente.
Para quebrar definitivamente o encanto era preciso que se dessem pancadas com ferro virgem na cabeça da cobra, derramando-se-lhe, após, a boca, três gotas de leite materno.

Mas, ao ver a cobra, todos perdiam a coragem, até que um soldado impávido, com quem Norato fizera amizade, conseguiu quebrar esse encanto, libertando o amigo.
(Do norte do Brasil, especialmente do Pará).

CORPO SECO

Criatura perversa que em vida semeou o mal cometendo toda sorte de crueldades, inclusive a de fustigar a própria mãe.

Ao morrer, sua alma foi recusada tanto por Deus como pelo Diabo, e seu corpo nem a terra o quis, ficando este, depois de reunido a sua alma, a putrefazer-se insepulto.

O Corpo Seco é corpo e alma penados – de quem nem os insetos se aproximam – que perambulam, vagabundos, pelos cemitérios e pelas ruas, assombrando os viventes.

CUCA

Mulher velha e feia, espécie de bruxa, tal qual é está descrita nos contos de fadas.

Bicho-papão feminino mencionado para se assustar crianças.
“Velha feia e esfarrapada que vive a intrigar os casais, despertando-lhes o “ciúme”, sempre acompanhada de “sapos, lacraus, cobras e aranhas venenosas”, na descrição da folclorista Gilda Helena em “Lendas da Nossa Terra”.

É muito citada em acalantos:
“Dorme, nenê, que a Cuca vem pegar, papai foi na roça, mamãe foi trabalhar. Bicho-papão, sai de cima do telhado, deixa o nenê dormir sossegado”.

É válido lembrar que a Cuca foi muito popularizada na série de televisão “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, baseada na obra de monteiro lobato, na qual, aliás, se verifica a citação de muitos dos nossos mitos, a exemplo do Saci, do Boitatá, da Mula-sem-cabeça, do Lobisomem, etc. Na aludida série, tal como nas ilustrações de livros do consagrado autor, a Cuca era apresentada como uma jacaroa bípede e falante, feiticeira poderosa, cercada de bichos peçonhentos. Dada a fora da propagação televisiva, quando se fala em Cuca, a imagem que se nos afigura é a da jacaroa da referida série.

CURAGANGA

Tal qual ocorre com o Lobisomem, a Curaganga ou Cumanganga, é no que se torna a sétima filha de um casal. É uma errante cabeça de fogo, em forma de bola.

Nas horas mortas, a cabeça da portadora desse mal separa-se-lhe do corpo e sai em chamas a vagar pelas matas. Apavora os que a encontram. Às vezes ataca a dentadas.
É chamada Curacanga, no Maranhão, e Cumacanga, no Pará.
Basílio de Magalhães (“Folclore no Brasil”) nos informa que para evitar esse horrível fadário “’e tomar a mãe a filha mais velha para madrinha da ultimogênita.

CURUPIRA

De procedência tupi-guarani (de curu, curruptela de curumim + pira, corpo = corpo de menino), o Curupira tem ligações originárias com o homem primitivo e atributos heróicos na proteção da fauna e da flora.

Ele tem como principal característica a direção contrária dos pés em relação ao próprio corpo, o que constitui um artifício natural para despistar os caçadores, colocando-nos numa perseguição a falsos rastros.

Possui extraordinários poderes e é implacável com os caçadores que matam pelo puro prazer de faze-lo; quando estes não acabam mortos, ficam loucos.
Dizem também que quando os caçadores não acertam seu alvo ou quando se perdem na mata, é certo que foi uma intervenção do Curupira.

É descrito de várias maneiras: como um curumim, um duende, um anão, um caboclinho, dentes verdes, cabelos vermelhos, mas sempre com os pés contrário (calcanhares para a frente).

Existem, no entanto, variantes que divergem dessas idéias, em que o Curupira é um ser medonho e perverso. “O demônio das Florestas”. Mas sobrelevam as lendas que fazem dele o protetor das matas.

FAMALIÁ

Originário da tradição européia de fabricar uma espécie de demônio caseiro, “familiar” (acabou famaliá para os sertanejos) é um pequenino diabinho guardado dentro de uma garrafa. Para cria-lo é preciso chocar na axila esquerda, durante toda a quaresma, um ovo de galo (!), que, segundo o povo, com muita persistência pode ser encontrado (às vezes leva anos). Desse ovo nascerá, ao final da quarentena, um diabinho que atenderá a todos os pedidos de quem o produziu. Não se pode, todavia, dar esmolas aos pobres com dinheiro vindo do Famaliá.

Quem o detiver, no entanto, pagará com sua alma pelos benefícios obtidos, pois criar um Famaliá.

Quem o detiver, no entanto, pagará com sua alma pelos benefícios obtidos, pois criar um Famaliá não deixa de ser um pacto com o Diabo.

Já registrado como mito e como lenda, essa história muito se popularizou quando da exibição, e da reprise, da telenovela global “Paraíso”, em que um dos protagonistas, - dizia a população da fictícia cidade de Paraíso – tinha um diabinho guardado em uma garrafa, produzindo tal como aqui dissemos.

GORJALA

Negro gigantesco, com um único e grande olho, que habita as serras cearenses.

Implacável perseguidor dos humanos, coloca-os sob o braço, quando os captura, devorando-os a dentadas.

GRALHA AZUL

Para o povo paranaense a gralha azul é a responsável pelo agrupado reflorestamento de pinheiros, tendo-se em vista a estranheza que causava o fato de estes aparecerem em grupos, em pontos afastados, sem que o homem os plantasse.

Diz o povo que essa ave encontrada nos planaltos do Paraná se alimenta de sementes dos pinheiros, e que, precavida, enterra-os, em pontos diversos e em considerável quantidade, para posteriormente saciar sua fome. Como nem todos os pinhões enterrados se consomem, estes germinam e fazem surgir os amplos pinhais agrupados. Assim se explicam as grandes florestas só de pinheiros.

Por isso, as armas dos caçadores negam fogo, ou, pior, os tiros saem pela culatra, se a ave contra a qual miram é a gralha azul.
Lenda paranaense.

IARA

Outra celebridade nacional, a Iara é apresentada como uma esplêndida sereia das águas amazônicas (mulher cujo corpo, da cintura para baixo é uma cauda de peixe) linda, de pele alva, olhos verdes e cabelos cor de ouro. Seu canto, de uma encantadora voz, enfeitiça e atrai índios e pescadores enamorados que, sem a menor possibilidade de lhe resistirem, mergulham nos rios e são por ela arrastados para o fundo das águas. Nem seus corpos são encontrados.
Deve-se fechar os olhos e tapar os ouvidos assim que se notar a presença da Iara nos rios e lagos. Um talismã feito com escama de boto vermelho também pode livrar seu portador da sedução da Iara.

No entanto, nem toda as narrativas sobre a Iara retratam-na dessa forma. Em algumas, há finais felizes, como essa registrada por Theobaldo Miranda dos Santos em “Lendas e Mitos do Brasil”, na qual o índio Jaraguari desaparecera depois de mergulhar num rio encantado pela linda sereia. Foi ele posteriormente visto abraçado com ela a namorar.

“Tia Regina”, em “Histórias e Lendas do Brasil”, conta uma versão semelhante, na qual a Iara vive um forte romance com o índio Jaraguari e acaba por leva-lo para viver com ela em seus palácios subaquáticos. Seus poderes sobrenaturais mantê-lo-iam vivo debaixo d’água.

Outras lendas falam de índios que com a Iara mantinham relacionamentos amorosos, a exemplo de Inaiê:
“Diziam-no manorado da Iara, pois desprezava as belas cunhantãs, que lhe ofereciam seu amor” (Gilda Helena em “Lendas da Nossa Terra”).

Luiz Caldas Tibiriçá, em “Contos e Lendas Brasileiras”, narra até um casamento da Mãe D’Água com um índio no conto “O Marido da Mãe D’Água”.
Domingos Vieira Filho, em “Folclore do Maranhão”, ao falar da lenda da Praio do Olho-d’água, cujas nascentes de água teriam se originado das lágrimas de uma índia que perdera o seu amor para a linda sereia, relata:
“Sucede que pelo mesmo índio se apaixonara a mãe-d’água. Um belo dia, a iara traiçoeira empolga o rapaz e o leva para o fundo das águas, deixando o cunhatã alucinada de dor”.

Pescadores, que garantem que ela existe, costumam contar que já houve casos de se fisgarem chumaços de cabelos louros com mais de um metro de comprimento.

Obs: A Iara ou Uiara é também comumente chamada “Mãe d’Água”, mas preferimos a denominação Iara, tendo em vista que quando se fala em “Mãe d’Água”, nas inúmeras lendas, há outros aspectos além da sensualidade e da sedução (as grandes marcas desse mito), enquanto que tais características representam o cerne das descrições narrativas se o nome mencionado for Iara.

JOÃO GALAFOICE

Semelhante ao Papa-Figo, é um preto velho. Ele ronda as residências à procura de crianças que se encontram fora de suas casas pra leva-las embora consigo.
Alfredo Brandão (“Os Negros na História de Alagoas” ) informa que a lenda do João Galafuz (veja abaixo), em Alagoas, foi alterada na história de João Galafoice, esse “nego véio”raptor de crianças.

JOÃO GALAFUZ

Duende que habita as águas dos mares e se manifesta como um facho luminoso e colorido que rutila sobre as ondas.
Os pescadores acreditam que é o espírito de um caboclo que morreu sem ser batizado.
De Pernambuco e Sergipe.

LABATUT

Homenzarrão monstruoso, de pés redondos, conhecido nos Estados do Ceará e Rio Grande do Norte. Tem pés redondos, longos e revoltos cabelos, só um olho na testa, mãos compridas, corpo cabeludo como o do porco-espinho, dentes como as presas de elefante. Devora crianças.
Conta-se que se transformou nesse monstro um sanguinário general francês que, no Ceará, promoveu uma verdadeira carnificina quando da repressão à insurreição de Joaquim Pinto Madeira.

LOIRA DO BANHEIRO

O horror das crianças nas escolas era uma mulher que, diziam, costumava aparecer nos banheiros. Era loira, cabelos compridos, com as cores próprias dos defuntos e com algodões em suas narinas: um cadáver ambulante, distinguindo-se o aspecto deste apenas pelo fato de escorrer sangue de seus lábios.

O encontro de pedaços de algodão no chão do banheiro, sujos de sangue, era sinal de que a “Loira” estivera por ali. O medo de encontrá-la era tanto que as crianças não iam ao banheiro desacompanhadas.

Quem conta sobre a “Loira”diz que ela era uma jovem que foi violentada e morta num banheiro de uma escola pública.
(Lenda?)

LOBISOMEM

Meio bicho, meio humano, o Lobisomem é mito universal que protagoniza muitas narrativas populares desde a Antiguidade, trazido às terras brasileiras pelos europeus, que morriam de medo dos lobos.

O lobisomem abrasileirado pode ser o sétimo filho homem de um casal; o que nasceu depois de sete filhas; o que não foi batizado; o filho de comadre e compadre, padrinho e afilhada, ou de união incestuosa.

Enquanto homem é sempre magro, pálido, que nunca adquire aspecto de pessoa saudável.
A transformação acontece nas noites de lua cheia e nas noites de quinta para sexta-feira: seu corpo começa a se cobrir de pêlos espessos; seu semblante toma a forma do de um morcego; suas orelhas crescem; as mãos se tornam garras; corre com os joelhos e cotovelos, que, pela manhã, após a transformação, se vêem feridos e ensangüentados.

Ao metamorfosear-se, sai em busca de sangue. Suas vítimas, se viverem, podem contagiar-se dessa maldição.
O lobisomem é morto através de uma bala de prata.
O encanto do monstro, por sua vez, pode ser desfeito por meio de algum ferimento que lhe arranque sangue, mas o autor do ferimento que evite se sujar com o sangue; senão se contagiará da triste sina.

Segundo Oliveira Martins (em “Sistema dos Mitos”) “os sacerdotes do Sorano Sabino, nos bosques da Itália primitiva, vestiam-se com as peles do lobo, animal do deus; a imagem confunde-se com o objeto da imaginação infantil, o sacerdote com o deus, a profissão com o fado. Por ventura o mito nasceu do rito”.

MÃE-DO-OURO

Senhora das minas, a Mãe-do-Ouro é um mito multiforme: no Paraná, é uma mulher sem cabeça; “no Rio Grande do Sul é informe, agindo com trovões, fogo, vento, dando o rumo da mudança (...) a Mãe-do-Ouro passeia luminosa, pelos ares, mas vive debaixo d’água, num palácio” (Câmara Cascudo, em “Mitos Brasileiros”); formosa mulher, de pele branca como a neve e com uma linda cabeleira cor de fogo, segundo Ruth Guimarães, em “Lendas e Fábulas do Brasil”; “fada formosíssima, filha do sol e irmã da aurora” (Luiz Caldas Tibirçá, “Folclore – Contos e Lendas Brasileiras”); em São Paulo é descrita como uma grande bola de fogo de ouro que atravessa o céu; onde ela cair, há ouro (Alceu Maynard Araújo, em “Folclore Nacional”).

“Mito ígneo, informe, pertence ao número dos fenômenos metereológicos, confundindo com a estrela cadente (...)esconjurada e tida, num só tempo, como capaz de satisfazer votos formulados durante sua trajetória cintilante”(Câmara Cascudo, op. Cit.).

De acordo com o consagrado autor, esse mito também infiltrou-se no ciclo das Mães-d’Água, assimilando-lhe o poder sensual: “os homens deixam a família e amigos, arrastados pela Mãe-do-Ouro”(talqualmente as perigosas sedutoras Iara e Alamoa).

Há muitas lendas sobre a Mãe-do-Ouro, uma das mais conhecidas fala de sua intervenção para ajudar um escravo a encontrar ouro para entregar ao seu senhor, homem mau e ganancioso, a fim de assim evitar duro castigo. A Mãe-do-Ouro, no entanto, lhe impôs a condição de não revelar a ninguém o lugar onde encontrou ouro. O Fazendeiro torturava-o no tronco para lhe arrancar o segredo, até que a Mãe-do-Ouro permitiu ao escravo que o revelasse. O fazendeiro, fascinado diante de tanta riqueza, começou ele próprio a cavar aquela vastidão de ouro. Tanto cavou que morreu soterrado.

MANI (A LENDA DA MANDIOCA)

Numa tribo indígena, uma mulher deu à luz uma menina de pele muito alva. Seu marido, desconfiado e com raiva, queria matar a ambas. O feiticeiro da tribo, no entanto, interveio, e disse ao índio que a mulher era inocente, o que seria muito castigo se tentasse qualquer coisa contra as duas.

A criança, a que deram o nome Mani, cresceu, linda, inteligente, querida por todos na tribo. Mas ela não viveu muito tempo.

Seus pais a sepultaram dentro de sua própria maloca e a regavam todos os dias com suas lágrimas.

No local, nasceu uma planta que, descascada, era branca como a pele de Mani. Os índios julgaram ter sido um milagre de Tupã (deus dos índios), pois a planta revelou-se saboroso e nutritivo alimento, e de suas raízes se vez um vinho delicioso.

Deram-lhe, então, o nome “mandioca” ou “manioca”, que significa “corpo de mani”.

MÃO-DE-CABELO

Fantasma que assombra, em Minas Gerais e em São Paulo, as crianças que uniram na cama. Tem forma humana, envolta num lençol branco. Suas mãos são feixes de cabelos louros, que passa pelo órgão sexual das crianças que urinaram enquanto dormiam, acordando-as, ameaçando mutilá-lo. É comum a advertência de que “se mijar na cama, a Mão-de-cabelo vem te pegar”.

Há uma variante, bem menos conhecida, apesar de registrada por Alceu Maynard Araújo (“Folclore Nacional”, vol. 1): “Quando não se consegue dormir, uma velha magra, alta, vestida de branco, cujos dedos são macios como cabelo, vem passar as mãos no rosto para que se concilie o sono”.

Prevalece, no entanto, o propósito disciplinador, visto que a versão assombrosa é, de longe, a mais conhecida.

Acrescente-se, ainda, que esse mito foi mencionado por Gilberto Freyre no Clássico “Casa Grande e Senzala”.

MÃO-PELADA

É um fantástico animal que espalha o medo nas matas e florestas do Estado de Minas Gerais.

É uma espécie de um lobo avermelhado, com a altura de um bezerro novo, de cujos olhos sai uma luz parecendo um fogo azulado. Uma de suas patas dianteiras é deformada e “pelada”.

MÃOZINHA-PRETA

Assombração corrente no Sudeste Brasileiro, conhecida também por “Mãozinha-de-Justiça”, trata-se de uma mão negra, pequena, solta pelo ar, que efetua os trabalhos domésticos com assombrosa velocidade e perfeição.
Mas, a Mãozinha-Preta também é capaz de bater e castigar, se necessário, concluindo, porém, a tarefa quando lhe dizem “Chega, Mãozinha de Justiça”.
De acordo com o preclaro folclorólogo Câmara Cascudo, “como a mão é negra, não castigava nem atormentava os escravos. Daí sua popularidade entre eles”.

MAPINGUARI

É um macaco grande, muito peludo, com uma bocarra verticalizada, que vai do nariz ao estômago, num medonho rasco que ostenta lábios vermelhecidos de sangue, por onde engole cabeças humanas (só come a cabeça). Ele atrai suas vítimas por meio de seus gritos, que parecem humanos.

Os pés do Mapinguari são como os de burro, e sua pele é semelhante ao casco de jacaré.

Sempre faminto, assombra o Amazonas, o Acre e o Pará. Até os mais valentes guerreiros morrem de medo do Mapinguari.
É também vulnerável em seu umbigo.

MATINTA PERERA

Uma velha feia, assombrosa, toda vestida de negro, cujo rosto é ocultado por uma cabeleira negra e revolta, que anda acompanhada de um pássaro agourento. Existe também a versão da Matinta Perera com asas, capaz de voar, e que se transforma nesse pássaro, chamado “rasga-mortalha”. O assobio estridente dessa ave assusta as crianças e não deixa ninguém dormir.
Mulheres idosas da região amazônica teriam a sina de se tornar essa criatura.
Quando está prestes a morrer, ela pergunta: “Quem quer? Quem quer? Quem quer?
Quem responder, acreditando tratar-se de algo valioso, transformar-se-á em Matinta Perera.
Walcyr Monteiro, em “Visagens e Assombrações de Belém”, explica que para “prender” a Matinta Perera é preciso enterrar uma tesoura virgem, aberta, colocar-lhe no meio uma chave e por cima desta um terço e rezar algumas orações. Assim ela fica presa ao local.


MENINO DOURADO

Menino loiro que em noites enluaradas aparece no Rio São Francisco, emergindo desse rio e mergulhando em suas águas, sucessivamente, montado nas costas de um enorme e mágico peixe dourado, que o teria salvo do afogamento e se encarregado de sua criação.

MOÇA DE BRANCO

Moça vestida de branco que à noite aparecia pedindo carona aos caminhoneiros na antiga estrada Rio-São Paulo.
Os motoristas de caminhão, sempre solícitos com mulheres, estacionavam o veículo e abriam a porta para o ingresso da bela jovem.
A viagem prosseguia. A moça, retraída, estranha, sombria, calada; limitava-se a responder com monossílabos ao que lhe perguntavam.
Entretanto, algum tempo depois, os motoristas se arrepiavam de pavor ao notares que a moça havia simplesmente desaparecido.
Contavam os caminhoneiros que ela fora morta atropelada por um caminhão ao dirigir-se à igreja no dia de seu casamento.
Lenda paulista, segundo Alceu Maynard Araújo (op. Cit.).


MULA-SEM-CABEÇA

É uma enorme mula, acéfala como diz o próprio nome, que solta fogo pelo pescoço.
O estrondoso galopar da Mula-sem-cabeça faz tremer o chão, ouvindo-se de longe seu mórbido e estridente relincho. Seus possantes coices que cortam como navalha ferem mortalmente os homens e animais que cruzam seu caminho. Pela madrugada, volta à forma humana, suja, desgrenhada, toda machucada.

Quem defrontar com a Mula-sem-cabeça deve esconder as unha, pois estas têm para o monstro grande brilho, atraindo-o.
A mais tradicional das versões sobre esse mito nacionalmente conhecido conta que a Mula-sem-cabeça é aquilo em que se transformam, como punição, as amantes de padres católicos, Estes, para evitar que o seu amor sofra essa triste sina devem amaldiçoa-lo sete vezes antes de celebrar a missa. Já o desencantamento da Mula-sem-cabeça, a exemplo do Lobisomem, requer um ferimento que lhe tire sangue. O encanto também pode ser desfeito se lhe for tirado o freio de ferro que traz no pescoço.

Outras há, entretanto, que dizem ter sido o costume de passear de madrugada pelo cemitério. Esse estranho hábito despertou a curiosidade do rei, que numa ocasião a seguiu e a flagrou comendo o cadáver de uma criança que havia morrido na noite anterior. Vendo-se descoberta, transformou-se naquele bicho (Theobaldo Miranda dos Santos, “Lendas e Mitos do Brasil”).
Alceu Maynard Araújo (em “Folclore Nacional”) acrescenta outras causas para a malsinada transformação: as moças namorarem na Sexta-feira santa; moças solteiras terem relação sexual antes do casamento.

O mesmo autor pontifica que a versão mais tradicional, no passado, “era uma forma de proibição, de sanção que se inventou para que as mulheres não ‘tentassem’ os padres”, considerando interessante que “esse castigo é só para a mulher”. O padre “representa o sagrado, ela , a tentação, o demônio”.
Entretanto, é oportuno mencionar que o Prof. José Sant´anna (criador do Festival do Folclore”, a exemplo de Câmara Cascudo (“Dicionário do Folclore Brasileiro”), registra a figura do CAVALO-SEM-CABEÇA (São Paulo, Mato Grosso e Minas Gerais) que representaria a sanção contra o padre, sendo “uma réplica à mula-sem-cabeça”, diferenciando-se desta “pela morfologia do corpo”.
Como se pode constatar, o problema, na realidade, não eram só as mulheres, tanto que foi preciso que criassem outra fantástica figura.

NEGRINHO DO PASTOREIO

Um escravo, ainda menino, sem pais, sem padrinhos, que se dizia afilhado de Nossa Senhora, e a quem chamavam Negrinho, era encarregado de pastorear o rebanho de um cruel estancieiro, seu senhor.
Numa noite em que estava a exercer esse mister, com medo do som das corujas, acabou adormecendo.
O filho do malvado senhor, tão perverso como o pai, fez com que os cavalos escapassem, pondo a culpa no Negrinho.
Depois de ter mandado que seus feitores açoitassem o Negrinho, o senhor ordenou a este que no escuro da noite reunisse os cavalos. Nossa Senhora, então, atendendo ao pedido de ajuda de seu afilhado, iluminou as coxilhas por onde ele cavalgava à procura dos animais, fazendo com que estes pudessem ser vistos e finalmente reunidos no potreiro pelo Negrinho.
O filho do estancieiro, não satisfeito, soltou novamente os cavalos.
Dessa vez, a surra foi impiedosa e o Negrinho, depois de atirado num formigueiro, acabou morrendo.
Salvo por Nossa Senhora, e usufruindo da liberdade que lhe trouxe a morte, dizem que ele cavalga até hoje pela terra e pelo céu.
“Quem acender uma vela para o Negrinho do Pastoreio encontrará o que perdeu: amor, felicidade ou objetos”, diz Alceu Maynard Araújo, em “Lendas Brasileiras”.
Do sul do Brasil.

“OS OLHOS DO MENINO” (A LENDA DO GUARANÁ)

Um casal de índios que não conseguia ter filhos implorou a Tupã que lhes concedesse essa graça.
O pedido foi atendido. Tiveram um lindo, bondoso e inteligente menino, que logo conquistou a amizade de todos da aldeia.
O espírito do mal ficou com inveja e com ódio do menino e acabou matando-o ao tomar a forma de uma cobra.
Ao darem sua falta, toda a tribo saiu à sua procura até encontrá-lo morto, caído ao lado de uma árvore.
Nesse momento, a mãe da criança ouviu Tupã lhe dizer para plantar ali os olhos do menino, que deles nasceria um fruto maravilhoso.
Assim nasceu o guaraná, cujas sementes negras, envoltas numa película branca, realmente se assemelham a um olho humano.

PAI-DO-MATO

Bicho gigantesco, de corpo todo piloso, cabelos até o chão, barbicha, mão de macaco, pé de cabra e orelhas de cavalo.
Seus urros e seu riso macabro reverberam por toda a mata.
Tiros e facadas não o matam, exceto se lhe atingir o umbigo.
É também comedor de gente.

PAPA-FIGO

Um preto velho carregando um saco de estopa nas costas, muito feio, banguela, barbudo, esmolambado, leproso, que para se tratar desse terrível enfermidade mata crianças mentirosas para lhes comer o fígado.
A gente simples do povo acredita que a lepra altera os caracteres do sangue, sendo por isso chamada também de mal de fígado ou mal do sangue. Para se purificar é preciso um novo fígado, cru, de criança sadia e forte.
Esse foi o ponto de partida para o surgimento do temível Papa-figo, o comedor de fígado, que atemoriza as crianças nas narrativas dos pais.
Dizem que ele costuma rondar as escola, jardins e parques, atraindo as crianças, jardins e parques, atraindo as crianças desobedientes e mentirosas com doces e brinquedos, aí as mata arrancando lhes o fígado (“fico para o povo”).
De acordo com uma versão de que o Papa-figo teria sido uma pessoa rica que contraiu a terrível doença, ele costuma deixar dentro da barrida da vítima uma grande quantia em dinheiro para os familiares e para o sepultamento.
Mito conhecido em todo o Brasil.

PISADEIRA

Acredita-se que o pesadelo resulta da ação maléfica de um demônio ou espírito ruim.
A Pisadeira seria, então, para o povo, a personificação do pesadelo numa velha feia, gorda, pesada, que sentaria na boca do estômago de quem está a dormir, oprimindo-lhe o tórax de modo a dificultar a respiração. A ela atribuem a causa de malfadados sonhos. Suas presas mais fáceis, dizem, são as pessoas que dormem de costas ou com o estômago cheio.
É curioso notar que o vocábulo pesadelo deriva de “peso”, “pesado”.

PORCA DOS SETE LEITÕES

É uma porca, que costuma aparecer atrás de igrejas antigas e de cruzeiros de estadas, acompanhada de sete leitões. É branca e solta fogo pelos olhos, pelo focinho e pela boca. Ela teria sido uma rainha que, com seus filhos pequenos, sofreu essa transformação por vingança de um horrível feiticeiro.
De acordo com outra versão, seria a alma de uma mulher que praticara sete abortos.
(Chamada de lenda, mito, e até mesmo de superstição).

A PRINCESA DA CIDADE ENCANTADA

Em Jericoacara, os moradores contam que existe uma cidade encanta, perto da praia, sob o farol, onde só se pode chegar na maré baixa. A entrada, numa caverna, é fechada por uma enorme grade de ferro.
Nessa cidade vive uma linda princesa, que por um feitiço de um bruxo malvado com quem ela não quis se casar teve o seu corpo transformado numa espécie de serpente de escamas douradas. Apenas seu rosto e seus pés se mantiveram a salvo da terrível bruxaria.
Dizem que para quebrar esse encanto, é preciso banhá-la com sangue humano e que o herói que a salvar ficará com ela e com todo o ouro que existe na cidade, a qual também renascerá.
Mas, os que até hoje tentaram, correm aterrorizados ao ouvirem, logo na entrada da cidade, os sons apavorantes de fantasmas, de gemidos e gritos humanos, e de urros de monstros ferozes.
Lenda mais conhecida do Ceará.

QUIBUNGO

Bicho-papão, meio homem, meio maçado, cabeça muito grande e uma enorme boca nas costas – por onde devora as crianças – a qual se abre e fecha à medida que ele movimenta sua cabeça para cima ou para baixo.
Acredita-se que os negros, quando ficam muito velhos, “viram” Quibungo.
Diversamente dos outros que integram o chamado ciclo dos monstros, como o Pai-do-Mato e o Mapinguari, o Qujibungo não é invulnerável às armas do homem, de modo que pode ser ele abatido à faca, tiro ou pauladas.
Mito baiano, de origem africana.

SACI-PERERÊ

De acordo com a configuração mais popular, o Saci-Pererê é representado por um negrinho de uma perna só, com orelhas de morcego e a mão furada, que usa uma carapuça vermelha na cabeça, cujo poder mágico lhe confere a prerrogativa de ficar invisível e de aparecer e desaparecer como fumaça. Se lhe for tirada a carapuça ele perde seus poderes.
Ele se faz anunciar por um assobio estridente e adora fumar, sendo esta uma forte característica do Saci, pois é difícil imagina-lo sem seu cachimbo.
O Saci é daqueles fumantes que nunca trazem consigo palitos de fósforos ou isqueiro e, por isso, sempre assombra os viajantes pedindo-lhes fogo para seu pito.
Matreiro, traquinas, o Saci pratica todo tipo de diabruras: da nó nos rabos dos cavalos, faz queimar a comida, esparrama as brasas do fogão, joga farinha em toda a cozinha, derruba o chapéu dos viajantes (depois de quase matá-lo de susto ao montar na garupa de seus cavalos), faz cócegas e puxa as cobertas de quem está dormindo e outras molecagens ainda piores.
O remédio mais eficaz para espantar o Saci é rezar o Credo.
Amadeu Amaral, (em “Tradições Populares”) pontifica que “o Saci, que é certamente indígena em parte, revelando amálgama de elementos de outros mitos aborígines (Curupira, Caapora, etc), sofreu influência do negro, patente na transformação do personagem num moleque travesso, e ao mesmo tempo incorporou não pouca coisa de procedência européia. De modo que o Saci marca um momento importante, uma encruzilhada da nossa viagem histórica. O Saci é talvez um símbolo...”

UIRAPURU

“O que mais no fenômeno me espanta
É ainda existir um pássaro no mundo
que fique a escutar quando outro canta”.

Segundo a lenda, duas índias muito amigas se apaixonaram pelo mesmo homem, o novo cacique da tribo onde viviam. Como eram amicíssimas, deixaram para que o cacique decidisse com qual das duas iria ficar. Ele, porém, gostava de ambas as rivais, e não se decidia. Para solucionar o impasse, propôs um duelo, uma competição de arco e flecha: a pretendente que acertasse um pássaro, indicado por ele, em pleno vôo, seria sua mulher.
As duas amigas dispararam, então, suas flechas. Uma delas acertou o alvo e se casou com o cacique, A outra, embora se mostrasse conformada, derramava seu prato de dor às ocultas. Suas lágrimas formaram um rio.
Tupã, o deus dos índios, vendo nascer aquele rio que desconhecia, foi saber o que se passava. A índia lhe contou e pediu que a transformasse num pássaro a fim de que dessa forma pudesse matas as saudades de seu amor.
Ao ver que o cacique e sua amiga formavam um casal muito feliz, ficou ainda mais triste. A índia, então, voando de volta para sua tribo, começou a cantar um canto tão lindo que toda a mata parou para ouvi-lo. Tupã, ao surpreender-se com o silêncio da mata, encantado com o canto, deu à índia o nome de Uirapuru (pássaro que não é pássaro), e lhe disse que quando se sentisse triste, que cantasse, que a tristeza passava.

URUTAU (ou Mãe-da-Lua)

“À noite, na mudez da mata escura, solta o Urutau seu grito de saudade.
Pranto ou soluço, pleno de amargura, de quem a nostalgia à noite invade”.
Orlando de Almeida Sales

Pássaro sinistro, estranho, esquivo, que nas sombras e no escuro da noite se refugia, com seu triste canto, tão triste que parece ressoar um plangente e desesperado grito de dor, uma dor que nada cura.
É cercado de mistérios e de lendas (“personalizando fantasmas e visagens pavorosas”, segundo Luís da Câmara Cascudo) dentre as quais ficamos com três, que convergem num ponto: transformaram-se em Urutau enamorados que à dor sucumbiram, por causa de um amor perdido:
- a índia Imaeró, preterida pela irmã Denaquê, na disputa pelo coração de Tainá-Can;
- a guarani Nheambiu, derrotada pela morte, que levou seu namorado Quimbae (registradas por Câmara Cascudo, em “Dicionário do Folclore Brasileiro”);
- um jovem caboclo que na mata se entranhou tentando encontrar, sem jamais conseguir, a linda moça que lhe dissera ser o seu grande amor, antes de desaparecer (registrada por Benedicto Pires de Almeida, em “Folclore de Tietê”).

VAQUEIRO MISTERIOSO

Por todo o Nordeste brasileiro contam histórias sobre um vaqueiro muito humilde, aparentemente frágil, mal vestido, montado num cavalo velho, com um chapéu gasto a lhe ocultar o rosto. Não se sabe de onde vem, nem seu verdadeiro nome.
Ninguém lhe dá atenção nem dá nada por ele.
Quando se oferece para participar de vaquejadas ou outros certames com gado, zombam e caçoam do forasteiro.

Acontece, porém, que na hora das disputas ele se revela um vaqueiro hábil como ninguém, conhecedor de grandes segredos. Seu cavalo torna-se então, um veloz e belígero ginete. Ele reúne todo o gado, no curral, sozinho e em pouco tempo. Domina facilmente os mais ferozes touros. Nas vaquejadas, não há novilho, não há garrote, que escape à derrubada do vaqueiro misterioso. Enfim, acaba sendo ele o grande campeão.

Terminados os torneios e as festas, ele, alegre, bom garfo e grande bebedor, recusa os sedutores convites das mulheres, assim como as ofertas dos fazendeiros de bem remunerados trabalhos; apenas recebe os prêmios e se vai, para reaparecer depois em outras paragens.
Câmara Cascudo o registrou como mito (“Mitos Brasileiros”); Alceu Maynard Araújo, como lenda (“20 Lendas Brasileiras”).

VITÓRIA-RÉGIA

Era uma vez uma jovem e muito bonita índia, chamada Naiá, que se apaixonou pela lua ao ouvir as histórias de que esta era um belíssimo e poderoso guerreiro que, quando se enamorava de alguma índia, levava-a consigo para o céu e a transformava numa linda estrela.
Naiá, depois de se apaixonar pela lua, passou a não se interessar por nenhum dos seus inúmeros pretendentes, mantendo-se fiel a seu sonhado guerreiro.
Numa das noites em que vagava pelas matas, ao ver a imagem da lua refletida num lago, acreditando ser o seu amado, atirou-se nas águas profundas do lago e morreu afogada.
A lua, então, que não fizera de Naiá uma estrela no céu, transformou-a numa estrela das águas, fazendo com que seu corpo de índia se tornasse uma imensa e linda flor, cujas pétalas à noite se abrem, para que o luar ilumine sua corola rosada.
Essa flor é a vitória-régia.

Por ANDRÉ LUIZ NAKAMURA

 
52ª Edição
   
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