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Danças

ANDRÉ LUIZ NAKAMURA

Das mais remotas manifestações culturais da humanidade, a dança, nos primórdios, era integrante de rituais religiosos e mágicos, de cuja prática existem milenares registros arqueológicos.

Ainda hoje, verifica-se o uso da dança como manifestação de devoção, com caráter religioso, a exemplo de algumas que logo veremos no decorrer deste artigo.

Com o tempo, a dança deixou de ter apenas motivação religiosa e passou a adquirir função recreativa e estética, fazendo-se presente em todas as sociedades humanas.
Atualmente, é usada inclusive com finalidade terapêutica.

DANÇA FOLCLÓRICA
Diversamente das danças "da moda", fomentadas pelos meios de comunicação de massa, ou da dança clássica, erudita, a dança folclórica caracteriza-se por se situar e se desenvolver dentro da cultura espontânea, informal, ou seja, é aprendida pela observação e imitação direta, pela repetição e pela tradição, sem a intervenção da cultura erudita, sem a direção de coreógrafos.

Os estudiosos do tema classificam-nas de diversas maneiras. Alguns as enfeixam em três grupos: danças "religiosas" (São Gonçalo, por exemplo), "guerreiras" (Quilombo, Maculelê) e "profanas" (Lundu, Coco). Outros o fazem, segmentando-as de acordo com sua "forma" (par solto ou unido, fileiras, roda); "possível origem" ou influência (européia, indígena); e sua "finalidade" (de intenção religiosa ou profana). Outras formas de sistematização são também apresentadas, tais como, "quanto ao período em que são celebradas"; "quanto ao espaço de realização" (dança de salão, dança de terreiro); "quanto à indumentária"; "quanto à área geográfica", entre outras.

FOLGUEDOS
"Considerados pelos estudiosos como a principal característica das festas tradicionais, religiosas ou não, os folguedos populares englobam brincadeiras, diversões, artes e artesanato, danças e bailes, músicas e cantorias, jogos e sortes, o comércio de artigos regionais, os autos e as representações teatrais (...), as pantomimas e os teatros de bonecos, entre muitos outros", ensina Emília Biancardi, em "Raízes Musicais da Bahia" (pág. 55, grifamos).

O termo "folguedo" tem, portanto, várias acepções, mas a tendência entre a maior parte dos folclo-ristas é de usá-lo restritivamente, num sentido mais específico, para designar as manifestações em que existe alguma representação dramática, com personagens definidos.

Segundo Maria de Lourdes Borges Ribeiro, a dança folclórica "é a manifestação de um grupo de estrutura simples, apenas mestre e dançadores, com coreografia própria, sem texto dramático, com ou sem indumentária determinada"; "o grupo de folguedo tem uma estrutura complexa, com mestre, dançadores, per¬sonagens com hierarquia e atuação definida, indumentária determinada, elementos tradicionais, ensaios, parte dramática" (em "Folclore", Biblioteca Educação e Cultura, MEC).

Veríssimo de Melo, por sua vez, diverge, considerando equivalentes os termos danças e íolguedos populares, apresentando uma outra distinção entre folguedos e autos): "Entre as danças folclóricas, em geral, há que se separar os autos populares ou danças dramáticas (...) das outras danças ou folguedos populares. Os autos apresentam um enredo, uma estória. Os folguedos circunscrevem-se à coreografia, ritmo e música" ("Folclore Brasileiro - Rio Grande do Norte").

Muitos folcloristas, entretanto, referem-se ao "bumba-meu-boi", por exemplo, como auto ou como folguedo, indistintamente. São, enfim, amplas a diversificação terminológica e as distinções entre os fenômenos denominados. Usam-se "dança dramática", "auto", "folgança", "bailado", "cortejo".

Para Maria Amália Corrêa Giffoni em "Experiência de Pesquisa e Aplicação Didática de Danças Folclóricas", folguedos, ou bailados, danças-dramáticas e autos constituem denominações diferentes do mesmo fato folclórico, incluindo cortejo, danças, cantorias e declamação (Anuário do 28° Festival do Folclore).

Não obstante as divergências, é oportuno ressaltar que a grande mai¬oria dos autores utiliza os termos "danças" e "folguedos" quando tratam do assunto. Do mesmo modo, consta do Capítulo IX do texto resultante da "Releitura" da Carta do Folclore Brasileiro, produzido no VUI Congresso Brasileiro de Folclore, em dezembro de 1995, em Salvador, Bahia: "Grupos Parafolclóricos - São assim chamados os grupos que apresentam folguedos e danças folclóricas (...)".

Poderíamos, então, estabelecer esta distinção: a existência de dramatização e de personagens específicos, presentes no folguedo, o distingue da dança.
Há, no entanto, manifestações em que a dança é apenas parte, mas não essencial, de determinado "folguedo", podendo inclusive nem ocorrer, assim como, em alguns "Bois", por exemplo, o episódio da morte e da ressurreição do animal pode também não ser encenado.

Sendo assim, consideramos oportunas as conceituações de Américo Pellegrini Filho, segundo o qual Dança Folclórica é "forma de expressão tradicionalmente popular que se baseia em movimentos rítmicos do corpo ou parte dele (especialmente os pés), em geral acompanhados por música e canto, e aprendida de modo informal por contatos interpessoais" ("Danças Folclóricas", pág. 26, 2a edição, Ed. Esperança); e Folguedo é "forma folclórica com estrutura, personagens e às vezes enredo, incluindo comumente danças ou coreografias reduzidas. E integrado, geralmente, por pessoas mais ou menos constantes que mantêm um tema central tradicional. Pode não ocorrer a representação teatral (o desenvolvimento de um enredo), mas pelo menos se observam a organização de cortejo, a estrutura coletiva, os trajes especiais. Desse modo, o folguedo popular é uma forma folclórica mais ampla e complexa que a dança e chega mesmo a incluir danças" (op. cit. pág. 27).

PARAFOLCLORE
O termo "parafolclore", formado pelo prefixo grego para ("perto de", "ao lado de") e folclore (cultura popular), foi criado para designar o aproveitamento de produtos da cultura popular pelos meios eruditos.
Nesta modesta abordagem do assunto, trataremos apenas superficialmente da utilização das danças folclóricas com propósito estético.

GRUPOS PARAFOLCLÓRICOS
Dança parafolclórica é aquela baseada ou inspirada em uma dança folclórica, diferenciando-se desta por ser desenvolvida por dançarinos profissionais ou estudantes, sob a direção de um coreógrafo, com motivação estética e propósito artístico-espetacular. (Esse é o conceito comum, mormente entre os mais tradicionalistas. No entanto, há que se ressaltar a existência de grupos parafolclóricos que têm também outros propósitos, especialmente no sentido de difundir tradições folclóricas para fins didáticos).

São apresentadas pelos denominados Grupos Parafolclóricos, que pesquisam e reelaboram as danças e folguedos folclóricos, adaptando-os, a seu critério, para apresentá-los nos palcos. A dança é artisticamente reinterpretada. O figurino é enriquecido. A coreografia é reelaborada. Modificam-se alguns passos das danças tradicionais, acrescentam-se outros, tudo em conformidade com os efeitos cênicos almejados. E o folclore "estilizado".

Alguns grupos parafolclóricos orgulham-se de serem "o mais fiéis possível ao 'autêntico'". Outros discordam, argumentando que, se o objetivo for simplesmente imitar e copiar passo a passo a manifestação que se pretende projetar, nada de artístico se lhe acrescentará.

Também é usada a expressão "projeção folclórica", preferida por alguns folcloristas.

"Uma dança folclórica é folclore autêntico quando executada pelo grupo folk que a guarda em seu contexto cultural. Executada por alunos de um estabelecimento, respeitado o modelo folclórico, é folclore aplicado. Apresentada em teatro, por profissionais, modificada num ou noutro ponto para satisfação estética de uma determinada clientela, é projeção do folclore", ensina Maria de Lourdes Borges Ribeiro (op. cit).

Rogers Ayres, referindo-se aos diversos eventos de que participou como Balé Folclórico de Alagoas - Grupo Transart, declara que em todos eles "a marca do novo estava presente. Estudiosos, coreógrafos, professores e ensaiadores estão dando um novo formato desses eventos para que eles sobrevivam. Renovar para se eternizar. E isso o que fazemos quando restauramos uma obra de arte".

"Os parafolclóricos surgiram para homenagear os folclóricos de raiz. Os grupos nascem nas escolas, nas academias e também nas comunidades simples ou ricas para continuarem uma tradição que não deverá desaparecer totalmente" (Anuário do 40a Festival do Folclore, pág. 31).
Segundo o Capítulo IX do texto resultante da "Releitura" da Carta do Folclore Brasileiro, produzido no VIII Congresso Brasileiro de Folclore, em dezembro de 1995, em Salvador, Bahia:

"(...) GRUPOS PARAFOLCLÓRICOS"
1.São assim chamados os grupos que apresentam folguedos e danças folclóricas, cujos integrantes, em sua maioria, não são portadores das tradições representadas, organizam-se formalmente e aprendem as danças e os folguedos através do estudo regular, em alguns casos, exclusivamente bibliográfico e de modo não espontâneo.

2.Recomenda-se que tais grupos não concorram em nenhuma circunstância com os grupos populares e que, em suas apresentações, seja esclarecido aos espectadores que seus espetáculos constituem recriações e aproveitamento das manifestações folclóricas.

3.Os grupos parafolclóricos consti¬tuem uma alternativa para a prática de ensino e para a divulgação das tradições folclóricas, tanto para fins educativos como para atendimento a eventos turísticos e culturais".

Bastante oportunos os comentários de Gustavo Cortes sobre o item 2 do Capítulo IX da Releitura da Carta do Folclore Brasileiro: "O que me parece mais importante é refletir o parafolclore como questão relacionada à arte e à educação. Por se tratar também de manifestação artística na forma e conteúdo, o artista que utilizar da projeção folclórica terá a liberdade de expressar o seu trabalho com caráter único, pois a visão da arte é específica e vai de acordo com as experiências vividas pelo seu autor. Contudo, a expressão artística deverá ter o cuidado de ser baseada em estudos que não agridam a manifestação autêntica, sendo coerente com a pesquisa realizada, sem perder a particularidade na criação do trabalho. Se a intenção da projeção folclórica for apenas copiar o fato existente, não trará nada a acrescentar em termos de arte. E importante ficar claro para o público qual o tipo de trabalho a que ele irá assistir. Assim, não haverá a ocorrência de competição entre as manifestações que já são diferentes entre si, como ficou registrado no 2a item da carta" (Boletim da Comissão Mineira de Folclore n° 25).

Vejamos alguns folguedos e danças, ecoando antes, as sábias palavras do eminente Alceu Maynard Araújo, segundo o qual "uma das mais sérias dificuldades encontradas em nosso país, com referência aos estudos da demopsicologia, é a denominação dada às danças, às cerimônias religiosas populares e aos instrumentos musicais, pois variam de região para região" ("Folclore Nacional", Vol. II, "Danças * Recreação * Música", pág. 231, Ed. Melhoramentos).

BOI
Animal cultuado pelo mundo e também entre nós, em torno da fi¬gura do boi (uma importante fonte de trabalho e de renda), existem lendas e outras narrativas que marcaram no Brasil sua presença em nosso folclore.

Uma das versões sobre sua origem é a de que estaria relacionada a um antigo culto ao deus egípcio da fertilidade (Apis), representado por um boi, que morria e ressuscitava, também praticado em outras regiões da Africa. Esse culto então teria sido trazido ao Brasil pelos escravos africanos.

O auto do boi apresenta um enredo básico em quase todo o país: a negra Catirina, grávida, com desejo de comer língua de boi, mas a do mais belo da fazenda. Seu marido, o "Pai Francisco" ou "Pai Chico", trabalhador na fazenda, mata o animal pertencente a seu patrão para atendê-la. O boi é morto. O patrão por ele reclama, e depois de muitos entre¬meios de personagens caricaturados da sociedade, que vêm opinar sobre o ocorrido, o criminoso é descoberto. Rezas, rituais má¬gicos e remédios se seguem. O boi ressuscita e tudo vira festa.

Das diversas formas em que esse folguedo é apresentado em todas as regiões brasileiras, exemplifiquemos com os seguintes:

BOI-DE-MÁSCARA
Essa difere dos tradicionais bois do Norte brasileiro por seu ritmo e pelo uso de máscaras e "cabeções" pelos dançarinos. Não há a encena¬ção do enredo. Teria surgido no município paraense de São Caetano de Oliva.

BOI-BUMBA de Parintins, Amazonas
Megaevento, dos maiores do país, a festa do boi-bumbá de Parintins, Amazonas, é ali realizada há mais de oito décadas, no mês de junho, atualmente no "Bumbó-dromo", a grande arena onde ocorrem as apresentações.

Há um destaque maior para a presença de elementos indígenas, que o distingue do Bumba-meu-boi mara¬nhense (ressalte-se, porém, que o boi-bumbá é filho direto do bumba-meu-boi do Nordeste). Também se diferencia de outros bois pelo ritmo, pela indumentária, pela coreografia e per¬sonagens utilizados. Monumentais carros alegóricos e ricos figurinos fazem parte das apresentações, nas quais são evocados fatos, lendas e qualidades da Amazônia.

Uma acirrada disputa se trava entre os bois "Garantido", em que prevalece a cor vermelha, e "Caprichoso", em que predomina a cor azul.

BUMBA-MEU-BOI
Do Nordeste, especialmente no Maranhão, onde é um dos maiores festejos brasileiros, o Bumba-meu-boi prima pela riqueza e diversidade do figurino e dos elementos rítmicos e coreográficos. É usado o termo "sotaque" para as músicas que acompanham os bois maranhenses. O que os distingue são os instrumentos musicais utilizados e a cadência do ritmo imprimido a cada espécie. Dentre as figuras se destacam o Pai Francisco, a Catirina, Dona Maria (mulher do amo), pajé, índios, vaqueiros, cazumbás (espé¬cies de palhaços, mascarados). Em outros Estados nordestinos, há variantes como o Boi-de-Reis, no Rio Grande do Norte, e o "Cavalo- Marinho", especialmente em Pernam¬buco e Paraíba. Neste último, além da figura do boi, se destaca, entre várias outras, a do Cavalo-Marinho, espécie em torno da qual o povo criou diversas lendas. No Boi-de-Reis, há também outras, como os Galantes (ricamente vestidos, adornados com fitas coloridas e espe¬lhos); os Mascarados (trajando rou¬pas surradas, com os rostos pinta¬dos de tisna) e outras figuras de bi¬chos e assombrações.

REIS-DE-BOI
E um folguedo que homenageia os Santos Reis, no qual se realiza o auto do boi, de grande ocorrência no Estado do Espírito Santo, especialmente nos municípios de Conceição da Barra e de São Mateus, estendendo-se a alguns do sul da Bahia. Compõe-se de vários elementos: o Boi, personagem principal, o Vaqueiro, Pai Francisco e a Catirina, João Mole (um boneco desengonçado), um grupo de marujos e outras figuras representando animais, monstros e fantasmas.

BOI DO NATAL
Na região Centro-Oeste, ocorre também o folguedo chamado "Boi do Natal", com o mesmo tema dos outros "bois", qual seja, o animal morto e ressuscitado. O que muda são alguns personagens, informa Carlos Felipe de Melo Marques, havendo lugar "para um caboclo, o Gregório; para um negro, o Mateus; e para um índio, o Caipora. Entre cantos, danças e palavras, o boi e seus companheiros, a mulinha, o cavalo de fogo e o jacaré brincam no meio do povo" ("O Grande Livro do Folclore", pág. 197, 2a Edição, Ed. Leitura).

BOI-DE-MAMÃO
Na região sul, especialmente em Santa Catarina, o "Boi" é o Boi-de-mamão. O conhecido enredo é encenado, mas outras figuras são nele introduzidas, como as de bonecos gigantes e outros animais. O nome "boi-de-mamão", segundo alguns autores, se referiria a um mamão verde que teria sido usado, às pressas, na confecção da figura do boi para mostrá-la a umas crianças.

MARUJADA
Antigo folguedo, de origem portuguesa, que retrata tanto os dramas enfrentados pelos marujos como os seus heróicos feitos em alto-mar, descobrindo terras, vencendo batalhas, em especial contra os mouros. Esse folguedo conserva vestígios dos antigos autos portugueses da Nau Catarineta (antigo romance oral, de origem ibérica, cuja narrativa trata do desaparecimento de um navio português regressando de colônias). Vários personagens fazem parte desse folguedo: o Almirante, o Capitão-de-mar-e-guerra, Capitão-de-fragata, marujos, cristãos, mouros, entre outros. O figurino dos membros do grupo lembra o dos antigos marinheiros.

A denominação varia ao longo das regiões em que aparece no Brasil:
Marujada, Marujos, Fragata, Barca, Chegança, Chegança de Marujos. No Nordeste, alguns se denominam, curiosamente, "Fandango", o qual, segundo Rogers Ayres, diretor do Balé Folclórico de Alagoas - Grupo Tran-sart, "corresponde à Marujada de outros Estados brasileiros". Rogers acrescenta que "o único grupo existente atualmente em Alagoas está localizado no Pontal da Barra e é dirigido pelo mestre Aminadab". Em Minas Gerais, informa Gustavo Cortes, há os "Marujos", que se apresentam nas festividades de Nossa Senhora do Rosário, de São Benedito e de Santa Efigênia, vestidos com os trajes típicos de marinheiros, ostentando o ro¬sário de lágrimas na cintura.

A Marujada de Bragança/PA, no entanto, muito difere dos demais folguedos existentes no Brasil. E composta por mulheres, às quais cabe o comando e a organização da festividade; os homens são apenas acompanhantes e tocadores. Não há muitas personagens além da Capitoa e da Sub-capitoa. As marujas vestem blusa branca, toda rendada e saia comprida rodada, vermelha ou azul. Usam uma fita, a tiracolo, azul ou encarnada, de acordo com a cor da saia, bem como um chapéu cheio de plumas e de fitas de várias cores. E realizada no dia de São Benedito, no dia de Natal, no mês de dezembro e no dia Ia de janeiro. Não há dramatização na Marujada de Bragança nem alusões à Nau Catarineta oú a feitos marítimos.

PAU-DE-FITA
Considerada uma dança universal, é a sobrevivência de antigos rituais de cultos às árvores. Muitos povos dançaram em torno delas, que são símbolos de fertilidade, adornando-as de várias cores. Um dia, alguém a enfeitou com fitas. Mais tarde, alguém tomou dessas fitas enquanto dançava. O exemplo foi imitado e a coordenação de movimentos deu origem à dança. Do topo de um mastro de cerca de três metros de comprimento, partem fitas coloridas. Os dançadores, em torno do mastro, cada um segurando uma fita, vão trançando-as, formando figuras. O número de dançantes deve ser sempre par para que as "tramas" ou "tranças" possam ser levadas a bom termo. Dançada em quase todas as regiões do Brasil, recebe diferentes nomes, conforme o local: Tipiti, Dança-das-fitas, Dança de trançar, Folguedo-da-trança, Trança-fitas, entre outros.

QUADRILHA
Típica de festejos juninos, a Quadrilha surgiu como dança aristocrática, proveniente dos salões da França, divulgada depois entre os europeus. Introduzida no Brasil como dança de salão, ela foi apropriada e reelaborada ao sabor popular. Dos salões nobres, foi levada à zona rural, de cujas festividades é normalmente parte. Propagou-se pelas cidades e hoje é tradicionalmente dançada nas festas juninas. Há competições de Quadrilhas nas grandes festas.

Um "casamento na roça" é às vezes encenado. Várias são as figurações que os dançarinos desenvolvem, sob o comando de um mestre, o "marcante" ou "marcador":

CANA-VERDE
E uma dança proveniente da província portuguesa do Minho, Portugal, que por aqui muito se disseminou. Encontram-se diferentes versões dessa dança em vários Estados brasileiros, quanto à coreo¬grafia e à música. Também chamada Caninha-verde.

Outros folcloris-tas discordam, a exemplo de Alceu Maynard Araújo (op. cit, pág. 182), que cita também Corné¬lio Pires, para os quais "não se deve confundir a dança portuguesa da 'Caninha-verde' com a nossa 'Cana-verde'".

Entretanto, a confusão já está feita. Na "Caninha-verde" do Ceará, único local em que a dança se apresenta da forma a seguir descrita, a indumentária, aliás, se baseia em trajes da corte portuguesa no Brasil, mas com um exagero carnavalesco bem próprio dos brasileiros. No decorrer da coreografia, os "nobres" saem dançando, envolvidos pelos súditos, todos muito festivos, "a cantar" e "a dançar" ao som de pandeiros, bandolim, violão e cavaquinho. Na Cana-verde gaúcha, a dança é mais lenta, predominando a alternância de passos de juntar e de recuo, com giros dos cavalheiros e damas, ora com seus respectivos braços direitos entrelaçados, ora com os esquerdos (frentes dos corpos ao contrário), ao som da conhecida música "Eu plantei a cana-verde, sete palmos de fundura (...) não levou nem sete dias, a cana estava madura". Da "Cana-verde de passagem", paulista, trataremos oportunamente, no rol das danças da região Sudeste.

XOTE
E uma dança de salão, aristocrática, que saiu das "altas rodas", incorporando-se aos bailes populares. São usuais as pronúncias xote e xotes. Alguns dizem que a origem dessa dança é alemã; outros, escocesa; outros, ainda, holandesa. Alceu Maynard preferiu dizer que é de origem européia (schotisch). No Norte do Brasil, há o Xote Bragantino (de Bragança Paraense, Pará), que também faz parte da Marujada em Bragança, dançado por pares, sempre em roda, em meio a volteios e batidas fortes dos pés contra o chão, na cadência da música, cujo passo principal é a saudação entre os cavalheiros e as damas (estas, com os braços esticados, sustém levemente, com as pontas dos dedos, parte de seus vestidos, próxima à barra, fazendo uma ligeira genuflexão; aqueles fazem uma flexão de tronco, à frente delas, cumprimen-tando-as).

No Nordeste, região do país em que é mais executado, ao som das sanfonas ou foles nos bailes populares, o xote é dançado de diversas maneiras, havendo muitas variantes: xote pé-de-serra, xote batido, xote pé-de-parede. Xote, aliás, é um dos ritmos de forró na região mais festeira do Brasil, valendo lembrar que não há um tipo especial de música denominada "forró"; este termo designa o local e a reunião de dançadores, onde são tocados xotes, xaxa-dos, baiões, entre outros ritmos. No Rio Grande do Sul, onde se amoldou à instrumentação típica, mormente a "cordeona", há também algumas variantes, dentre as quais se destacam o Xote-carreirinho variante cuja maior característica é um movimento coreográfico em que os pares, enlaçados, dão passos ligeiramente "arrastados" e sapateados, numa "cor-ridinha" bem como uma outra muito curiosa, o "Xote de duas damas".

Nessa última modalidade coreográfica "realmente excepcional", "não só no meio rio-grandense, como no meio universal", no dizer de Paixão Cortes e Barbosa Lessa cada cavalheiro dança com duas damas, executando os passos da dança, ladeado por cada uma delas, de mãos dadas os peões segurando, com cada uma das suas, as respectivas mãos, direita e esquerda, de suas "duas damas" elevadas próximo à altura de seus ombros. Segundo referidos autores, não se sabe "por que milagre veio surgir entre os gaúchos" essa variante do xote. "Influência dos platinos, através do 'palito'? Ou influência dos imigrantes alemães, numa reminiscência das antigas danças germânicas desse gênero?", indagam eles em "Manual de Danças Gaúchas" (pág. 91, Irmãos Vitale Editores).

CIRANDA
Essa dança de origem portuguesa também apresenta variações pelo Brasil afora. "Ciranda" é designação para as rodas infantis em diversas partes do Brasil. Em outras, não é especificamente dança de crianças. No Nordeste, em especial nos Estados de Pernambuco e Paraíba, é dança de roda em que os dançarinos se dão as mãos e ba¬lançam o corpo enquanto se movimentam em sentido anti-horário, dando passos para dentro e para fora do círculo, ao som de músicas produzidas com o uso de instru¬mentos de percussão, como tarol, bumbo, ganzá, e de sopro (pistons, trombone). Na região do Tapajós, Pará, existe a "Ciranda do Norte", que se distingue pela mistura de vários ritmos, como o xote, a valsa e outros, que tornam a dança ora suave, ora acelerada. É dançada ao som de banjo, flauta, curimbós, maracás, reco-recos, seguindo-se a marcação do compasso feita pelo pandeiro, violão e apito.

FANDANGO
Usa-se o termo "Fandango" para designar uma série de danças populares. Em São Paulo, no litoral, informa Caseia Frade, Fanpescadores, realizadas na faixa litorânea do Estado.
Vejamos mais alguns folguedos e danças, doravante segmentados de acordo com as regiões do país.

DANÇA DE SÃO GONÇALO
Dança de intenção religiosa, praticada geralmente em cumprimento de promessa, por devoção a São Gonçalo. E repleta de variantes pelo Brasil. No Mato Grosso, por exemplo, é dançada aos pares, e a imagem do santo é passada de mão em mão; em São Paulo, em forma de cortejo, uma fileira de mulheres, outra de homens; em Goiás, dançam apenas homens; em Minas Gerais, só mulheres, portando arcos, com apenas um homem representando o santo.

Dango compreende uma série de danças de pares mistos; no interior, é uma dança que muito se aproxima da catira ou cateretê, por causa do sapateado, dançada só por homens, que usam chapéu e lenço ao pescoço e botas com chilenas de duas rosetas. No Nordeste, como vimos, é o nome que em algumas localidades se dá à Marujada. Na região Sul, significa festa que reúne diversas danças regionais. No Paraná, especificamente, merecem relevo o conjunto de "marcas", nome com que se designam as danças apresentadas em festas típicas de caboclos e da Região Norte.

LUNDU MARAJÓ
Trata-se de uma autêntica representação coreográfica de uma conquista amorosa, empreendida com sedutores passos e movimentos. De origem africana, essa é a mais sensual das nossas danças populares. Na música que a acompanha, predominam instrumentos de sopro e atabaque, num ritmo lento e cadenciado. Chegou a ser proibida pelo governo federal, que cedeu às instâncias da Igreja Católica, que a considerava imoral.

Não é mais mostrada como no passado, em que as negras a dançavam com os seios à mostra. As dançarinas usam blusas curtas e saias rodadas e os homens, sem camisa (dependendo do local) ou com calças curtas.

SÍRIA
O nome é apócope de "Sirial", denominação dada pelos negros ao local em que recolhiam siris. Essa dança provém da região de Cametá, Pará. Os movimentos coreográficos _ lentos inicialmente, acelerando-se do meio para o final _ evocam os que os pescadores executam para a coleta de siris. Os dançarinos usam grandes chapéus de palha, a exemplo dos pescadores da referida localidade.

CARIMBO
Expressão máxima das danças folclóricas paraenses, o Carimbo é de origem indígena, dos Tupinam-bás, com marcante influência negra e portuguesa. Aos tambores so¬mam-se outros instrumentos como banjo, maracás, reco-recos, flautas e pandeiros, numa mistura de sons que imprime ao ritmo uma característica singular.
O nome, de origem tupi, deriva do principal instrumento utilizado (um atabaque grande), o curimbó (curi - pau e m'bó - oco ou furado). Merece destaque a brincadeira do lenço desenvolvida na dança, em que os dançarinos vão se abaixando, com as pernas abertas e esticadas, para pegar com a boca o lenço deixado no chão por uma dançarina, sem tocar a mão ou qualquer outra parte do corpo no chão.

RETUMBÃO
E uma das manifestações que integram a Marujada de Bragança Paraense. As mulheres saem em cortejo pelas ruas da cidade, acompanhadas pelos homens e tocadores. E uma dança comandada pelas mulheres, por meio da Capitoa, que ostenta em suas mãos um bastão de madeira, ornado de flores, usado para indicar as mudanças de direção e de passos. As vestimentas do Retumbão são as mesmas usadas na Marujada. O ritmo da dança é determinado pelo tambor, o "bagre". Dizem que o nome da dança provém das narrativas da região, segundo as quais eram "retumbantes" os sons dos tambores, fazendo-se ouvir a grandes distâncias.

CHULA MARAJOARA
É uma dança que louva divindades como São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, em cujas festividades, na Ilha do Marajó, é bastante freqüente. E dançada apenas por mulheres, descalças e com roupas estampadas, representando uma alegre forma de louvação.Os trajes usados nessa dança, lembrando a roupa característica do vaqueiro dessa região, cujos movimentos em seu trabalho são coreo-graficamente imitados.

MARABAIXO
Do Estado do Amapá, é uma dança de origem negra, cujo ritmo é cadenciado por toscos tambores de madeira. Trata-se de um folgue¬do de maior ocorrência no Sábado de Aleluia e Domingo da Páscoa. As mulheres usam vestidos estampados e os homens, calças brancas, camisas bordadas e chapéus de palha. Alguns dos movimentos dos dançarinos fazem lembrar um pouco os da capoeira. Mas no Ma-rabaixo não se segue uma coreografia básica; a improvisação é comum nessa dança.

DESFEITEIRA
Do Amazonas e do Pará, é uma dança lúdica, de origem portuguesa. Os pares vão dançando livremente. Há uma súbita parada da música executada pelo conjunto musical. O par que diante deste se encontra, no momento, é obrigado a declamar algum verso. Caso não o faça, é vaiado e deve pagar uma prenda.

Fecha-se o círculo de dançadores, homens e mulheres são posicionados alternadamente, de mãos dadas, com força, ou de braços entrelaçados, e o solista tenta escapar do cerco. Ao conseguir, é substituído. E corrente nos povoados próximos ao Rio Madeira, em Antazes e em Novo Aripuanã.

DO NORDESTE

CAPOEIRA
Capoeira é dança, é jogo, é contenda. Antes, uma arma dos negros por sua liberdade; hoje, uma luta dançante, ao som de pandeiros, agogôs, atabaques e berimbaus. Foi introduzida no Brasil pelos escravos africanos, mas o nome é de origem tupi (Kapu'era), segundo o Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Aurélio Buarque de Holanda, significando "terreno em que o mato foi roçado ou queimado para o cultivo da terra ou para outro fim". E muito corrente na Bahia, mas há vários estilos de capoeira por todo o Brasil.

VAQUEIRO DO MARAJÓ
Típica da Ilha do Marajó, Pará, onde há o maior rebanho de búfalos do país, esta dança retrata a lida dos vaqueiros do Norte do Brasil. Os dançarinos portam um laço para pegar gado e o giram acima de suas cabeças, simulando o preparo de uma laçada.

JACUNDÁ
Dança amazonense cujos passos se inspiram nos belos movimentos de nado do homônimo peixe. Os dançadores, em roda, giram no sentido anti-horário. Num dado momento, um solista fica no centro, dançando; é o "Jacundá".

BACAMARTEIROS OU BATALHÃO DE BACAMARTES
Conjunto de homens portando armas rudimentares denominadas "bacamartes", com pólvora de fabricação caseira, cujos tiros são disparados em manifestações populares como procissões, quermesses e outros festejos. Ao proceder aos tiros, em diversas posições, sem deixar cair o "bacamarte", os baca-marteiros demonstram sua destreza e habilidade.
O grupo Bacamarteiros de Carmópolis, Sergipe, surgiu no início do século XIX. Desse grupo, fazem parte 40 homens e 20 mulheres, todos com roupas típicas do ciclo junino, que, após os tiros, dançam um samba de roda.

PARAFUSOS
Os parafusos representam uma referência coreográfica aos furtos cometidos por escravos fugitivos, que, em horas mortas, nas noites de lua cheia, saíam de seus mocambos (refúgios) nas matas e vestiam as anáguas das sinhás deixadas ao sereno, umas sobre as outras, até cobrir o pescoço. Assim, saíam pelas ruas, dando pulos, fazendo assombração. O medo dos assombrados era maior que o impulso de tentar a recuperação de seus pertences, pois acreditavam que estavam sendo vítimas de almas de outro mundo.

Alforriados, os escravos festejaram vestidos tal qual faziam antes, para zombar de seus antigos senhores.

O grupo folclórico "Parafusos", de Lagarto Sergipe faz uma festiva referência a esses fatos que ali teriam se sucedido. Os integrantes usam turbantes, com o rosto pintado de branco, e, vestidos com anáguas, dançam, girando, fazendo lembrar a imagem de um parafuso.

MACULELÊ
Dança guerreira de origem africana, em que os participantes, geralmente apenas homens, dançam ao som de atabaques e agogôs. Os escravos dançavam o Maculelê nos canaviais com pedaços de cana (a roxa, mais resistente). Conta-se que em ocasiões de tentativa de fuga de algum escravo, o Maculelê era dançado, para distrair os feitores, facilitando a evasão. E proveniente de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano. O entrechoque de bastões e facões, pelos integrantes dos grupos, marcam essa manifestação, que teria também recebido influência indígena, segundo alguns folcloristas.

TAIEIRAS
Grupo de senhoras que acompanhavam a festa de Nossa Senhora do Rosário, na celebração de São Benedito, no dia 6 de janeiro, dançando e cantando, em Lagarto, Sergipe, terra natal de Silvio Romero, que fez registro dessa manifestação, vestidas com roupas similares às tradicionais das baianas. Originalmente, o grupo era composto de mulatas que seguiam a procissão. Essa tradição é mantida em Lagarto, Sergipe, onde é ampla a participação das Taieiras em eventos comemorativos religiosos.

REISADO
É do chamado ciclo natalino (período de celebração ao nascimento de Jesus Cristo). Atribui-se a São Francisco de Assis o surgimento de autos natalinos. Ele teria promovido uma representação de um presépio, com personagens da Bíblia, em 1223.

De origem portuguesa, é um folguedo nordestino que celebra o nascimento de Jesus e os três Reis Magos que o visitaram na ocasião, tal como as Folias de Reis do Sudeste, de que logo trataremos, das quais, aliás, diferem principalmente pelo figurino, pois, no Reisado, o traje é mais diversificado e colorido, com o uso de chapéus representando torres ou fachadas de igrejas.

COCO
De origem negra, essa dança surgiu nos engenhos, no período da escravidão. Os escravos, para amenizar as dores decorrentes dos esforços empreendidos para quebrar cocos secos com os pés, faziam deles instrumentos musicais, cantavam e dançavam a dança de roda, às vezes com palmas e sapateados. Tamancos às vezes são usados para lembrar o barulho da quebra dos cocos. Teria surgido em Alagoas, mas se difundiu por todo o Nordeste, sendo também dançada, com variações, pelo Brasil.

QUILOMBO
É um folguedo alagoano de origem africana, surgido após o malogro dos quilombolas dos Palmares. Evoca as ferrenhas e sanguinárias lutas travadas entre os escravos fugitivos e os implacáveis capatazes.

Outros autores defendem que não há vínculo entre esse folguedo e o referido acontecimento histórico, argumentando que se trata de uma reinterpretação erudita de danças brasileiras e européias, representando lutas ora entre negros e brancos, ora entre mouros e cristãos, ora entre negros e índios ou caboclos.

O conjunto musical é o Terno de Zabumba. A coreografia é uma simulação de luta, com o uso de foices pelos negros e de arcos e flechas pelos caboclos.

PASTORIL
Folguedo também pertencente ao "ciclo natalino", o Pastoril faz referência à adoração dos pastores ao Menino Jesus, por ocasião de seu nascimento. As "pastoras" (como são chamadas as integrantes desse folguedo) dividem-se em dois "cordões", o Azul e o Encarnado. Usam saias, blusas, aventais, portando pandeiros. Da indumentária das pastoras pertencentes a cada um desses cordões, faz parte alguma peça da respectiva cor, azul ou encarnada. Há bailados, cantos, recitativos e diálogos homenageando o nascimento do Messias. E um folguedo muito conhecido no Nordeste, cultivado com mais evidência no Estado de Alagoas.

GUERREIRO
O Guerreiro deriva de reisados alagoanos. Mas a riquíssima indumentária e um número maior de figurantes e episódios imprimem ao "Guerreiro" uma característica mais moderna em comparação aos antigos reisados.

Destaca-se no Guerreiro o uso de grandes chapéus, em formato de igreja, chamados "capelas", que são enfeitados com pedras e espelhos (que, dizem, devolvem o mau-olhado a quem o lança).

Os personagens são rei, rainha, contramestre, embaixadores, general, lira, índio Peri e seus vassalos, Mateus, dois palhaços, sereia, estrela de ouro, estrela brilhante, estrela republicana, a banda da lua e as figuras. As vezes, o tradicional "boi" e a Catirina também surgem no final.

BAIANAS ou BAIANA
Originária de Pernambuco, nessa dança se apresentam mulheres trajadas com vestes tradicionais de baianas, que dançam e fazem evoluções ao som de instrumentos de percussão. E considerada uma adaptação rural dos maracatus pernambucanos, mesclada com músicas que fazem lembrar o canto dos negros nas senzalas e a coreografia por eles criada nos terreiros da Casa Grande. Quentes e voluptuosos são os movimentos e os ritmos que acompanham a dança.

FREVO
Máxima expressão do carnaval pernambucano, embora se tenha espraiado por todo o Nordeste, Frevo é uma dança que ganha as ruas e os salões no ciclo carnavalesco. É dançada individualmente. Acelerados e energéticos são os passos dos dançarinos, que, em rápidos movimentos, se abaixam e se alteiam, esticando e dobrando suas pernas. E uma dança que deriva da capoeira. Gustavo Cortes informa que "das lutas de capoeira surgiram os passos geométricos e ritmados que compõem a dança. (...) As sombrinhas, que eram utilizadas como arma no passado, viraram adereços coloridos, servindo para dar equilíbrio e graça aos eletrizantes passos e tornando-se tradicional nos malabarismos executados pelos dançarinos" ("Dança, Brasil", pág. 87, Ed. Leitura).

Mário de Andrade via no guarda-chuva dos passistas "uma desinência decadente (generalizada pelo auxílio de equilíbrio que isso pode dar) dos pálios dos reis africanos, até agora permanecidos noutras danças folclóricas nossas", citado por Alceu Maynard Araújo (op. cit, pág. 254), o qual, por sua vez, assim se refere ao frevo: "dança alucinatória do carnaval pernambucano". A música, ditada por trombones e pistões, em que, segundo ele, está a grande força dessa dança, "dá oportunidade para que a coreografia se enriqueça ao máximo com o frenesi dos seus praticantes" (op. cit., pág. 253). O nome vem de "ferver", "fervura". Para a gente simples do povo, "frevura", que culminou em "frevo"."

XAXADO
E uma dança proveniente do sertão pernambucano que se espraiou por todo o Nordeste, divulgada pelo cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o "Lampião", e seu bando, os quais, dizem, também seriam seus autores. "E dança de cangaceiro, dos cabras do Lampião", canta-se. Inicialmente, era dançada apenas por homens, em festas e em preparativos para combates. Atualmente, já se verifica a participação feminina no Xaxado. Há passos rápidos, em que o pé direito cruza o outro, num sapateio deslizante e célere. Batidas no chão com os rifles ou fuzis, cujos tiros são às vezes disparados, também constituem uma marcação na coreografia. Do ruído das alpercatas (xá-xá-xá) usadas pelos "cabras", derivou o nome "Xaxado".

MARACATU
Tal como as Congadas do Sudeste, o Maracatu relembra a coroação, pelos escravos, de seus reis, as chamadas coroações dos reis-de-congo. É característico de Pernambuco, mas recentemente também foi constatada sua forte presença no Ceará.

Para alguns autores, o nome deriva de maracá, instrumento musical utilizado nesse folguedo. Para outros, é resultado do barulho produzido por determinado ritmo com tambores que os negros utilizavam como senha para avisar a proximidade da polícia. O som lembraria o vocábulo "ma-ra-ca-tu". Vê-se, no Maracatu, rico e colorido figurino, com bijuterias, espelhos e outros adereços cintilantes.

Com a libertação dos escravos, o Maracatu passou a integrar o carnaval. Em muitos deles também se fazem presentes figuras representativas dos orixás do Candomblé.
Do cortejo, fazem parte rei e rainha, dançarinas com roupas típicas de baianas, o porta-estandarte, e, entre outros, a dama-do-paço, que porta uma boneca chamada "calunga".

CABOCLINHOS
"Caboclinho é uma dança de origem indígena, como o próprio nome indica. No Nordeste, a palavra caboclo é utilizada para designar o índio ou, no máximo, o cruzamento de índio com o branco. E caboclinhos são os filhos dos caboclos" (Carlos da Fonte Filho, em "Espetáculos Populares de Pernambuco", Edições Bagaço). Dos mais antigos bailados de que se tem notícia no Brasil, foi registrado pela primeira vez em tribos indígenas nordestinas, em 1854, por Fernão Cardim, informa Gustavo Cortes. "Atualmente, são grupos fantasiados de índios que, ao som de pequenas flautas e bandas de pífanos, saem pelas ruas das cidades do Nordeste, no período carnavalesco. Executam um bailado ritmado, em séries de saltos e bate-pés, marcado pelos estalidos secos das preacas (espécie de arco e flecha)" (op. cit., pág. 92). Os dançarinos, que executam essa ágil coreografia, usam saias de penas, colares e cocares repletos de plumas e adornos cintilantes, em meio a outros adereços.

ARARUNA
Do Rio Grande do Norte (também dançada na Paraíba) é uma dança que faz referência a um pássaro preto chamado araruna, proveniente do Pará, muito comum na região. Ele é uma ameaça constante aos arrozais. Quando despontam os pendões de arroz, essas aves passam a comêlos avidamente. Se não são contidas, devoram toda a plantação. Para garantir a colheita, então, há que se afugentar essas aves. E desse tanger das ararunas que se originaram a dança e a letra da música: "Xô, xô, xô, Araruna Os movimentos se dão para frente, para trás e para os lados. São passos alusivos ao próprio pássaro.

Uma variante no Amazonas é chamada Iraúna, na qual há uma pequena encenação. Uma solista representa essa ave; um outro brincante, um caçador, que tenta capturá-la; quando consegue, assume o lugar do pássaro.

TOREM
"Dança de terriro, de influência ameríndia, lúdico-imitativa. Os participantes, de mãos dadas, formam uma grande roda. Ao centro, o tocador de aguaim (maracá) agita-o, solando a dança que é imitada pelos demais participantes. E uma dança agitada, com movimentos de corpo, requebros, batidas de pés no solo e imitação de animais de seu convívio: a cobra caninana, o guaxinim, a jaçanã, conhecidíssimos no Ceará. Cantam em coro em que, de permeio, ouvem-se vocábulos indígenas. Tomam mocorocó, bebida fermentada de suco de caju", explica Alceu Maynard Araújo (op. cit., pág. 259)

MANElRO-PAU
Também chamada Mineiro-pau, é originária da região de Cariri e de Juazeiro do Norte, no Ceará, onde os empregados das fazendas lutavam, em treinamento, com pedaços de madeira. Dança de roda em que os participantes portam um ou dois bastões que se entrechocam, à maneira das espadas, sendo percutidos, ora grupalmente, ora entre um e outro dançarino, em revezamento, numa ordem na qual há duas, três ou mais batidas. Carlos Felipe de Melo informa que é uma dança também encontrada no interior dos Estados do Rio de Janeiro, de São Paulo e da Zona da Mata de Minas. "Com uniformes coloridos e apresentando-se muito no período pré-carna-valesco, a dança costuma ter, na festa, personagens como o boi, a mulinha e o jaraguá" (op. cit., pág. 118).

TAMBOR DE CRIOULA
Típica do Maranhão, com alguma presença no Piauí, é uma dança cujo ritmo é obtido por meio de três tambores feitos de tronco, escavados a fogo. A coreografia é executada individualmente e consiste em sapateios e remelexos voluptuosos com o corpo inteiro dos dançarinos em formação circular. E dança de terreiro, sem data fixa para ser apresentada. A variedade no comprimento dos tambores, segundo Caseia Frade, "sugere denominações específicas: o tambor grande é chamado Socador; o médio, Crivador ou Meão; o pequeno, Perenga ou Pirerê" (em "Folclore", pág. 65, 2a edição, Ed. Global).

DO CENTRO-OESTE

CAVALHADA
Reminiscência das tradições da Cavalaria Medieval, a Cavalhada é um folguedo que rememora as históricas batalhas travadas entre os mouros invasores da Península Ibérica e os cristãos, que lutavam pela reconquista desse território, sob a liderança de Carlos Magno. Os fatos históricos, permeados por várias lendas, tiveram ampla repercussão no Brasil no século XVIII, com a tradução portuguesa do Livro "História do Imperador Carlos Magno e os Doze Pares da França". Realiza-se ao ar livre, em espaços amplos. Formam-se dois grupos, posicionados em pontos opostos, representando os mencionados adversários.

Luxuosamente vestidos (de azul, os cristãos, e de vermelho, os mouros, todos com capas bordadas e adornos cintilantes), portam espadas, lanças e pistolas. São vários os compo¬nentes, chegando, eventualmente, a quase uma centena de figurantes. Insultos e ameaças são trocados entre as partes em conflito, até que iniciam a simulação dos combates, fazendo-se uso das já mencionadas armas. Os mouros terminam subjugados, convertidos ao Cristianismo. Após, a parte lúdica se inicia, na qual os cavaleiros exibem sua destreza.

CATIRA
E uma dança mais típica de Goiás, da zona rural, mas que também se propagou em outros Estados, como Minas Gerais e São Paulo, onde também é chamada Cateretê. E uma dança masculina, embora eventualmente se encontre alguma "catira feminina", de projeção folclórica, a exemplo da Catira Feminina do Distrito de Baguaçu, Olímpia/SP. Posicionados em duas fileiras opostas, os catireiros.

DANÇA DOS MASCARADOS
Encontrada no município de Po-coné, em Mato Grosso, é dançada só por homens que, em um "cordão", vestem-se como tais e, em outro, como mulheres. Usam máscaras, roupas de chitão estampado e chapéus adornados com plumas, espelhos e outros adereços. É muito apreciada nas festas de São Benedito e do Espírito Santo. O ápice da dança é a "trança-fitas", em que violeiros, sapateiam, pulam, batem palmas, fazem meia volta e trocam de lugar uns com os outros. Para alguns autores, a origem da dança seria portuguesa, derivando da carretem, praticada em Portugal, no século XVI. Para outros, seria indígena, já que cateretê é palavra proveniente do tupi-guarani.

RECORTADO
É uma variante de cateretê, mais movimentada, dançada em fileiras opostas que se tornam uma roda no decorrer da dança. Em meio aos sapateados, os dançarinos executam meneios físicos que fazem lembrar a umbigada do Batuque. E uma dança predominantemente masculina, mas, em vários lugares da região, há também a participação feminina.

SERRA MORENINHA
Famosa no Estado de Goiás, é um bailado simples em que se formam duas fileiras de homens e mulheres. Posicionados frente a frente, os pares dão-se as mãos e executam vários passos, imitando os movimentos de dois serradores cortando madeira. Alceu Maynard Araújo já noticiava sua ocorrência também no Rio Grande do Sul, com o nome de "Serrote" (op. cit., pág. 191).

CURURU
De origem indígena, essa dança inicialmente só era apresentada por homens, o que, aliás, continua ocorrendo, especialmente no Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. E comum em festas religiosas. Embora o vocábulo cururu corresponda a "sapo", na língua nheengatu, não há nessa dança nenhum movimento coreográfico que faça alusão àquele bicho. Formam-se duas alas, uma defronte da outra. Iniciado o ritmo, as duas fileiras dão dois passos para a esquerda e para a direita, movimentando-se de maneira a formar uma roda, à medida que cresce a animação dos dançantes. Quem entoa os versos é chamado de "cururuzeiro", e os versos entoados denominam-se "carreiras". Ao som da viola-de-cocho, típico instrumento da região e de reco-recos, ento¬am-se versos improvisados. Não há indumentária específica.

VOLTA-SENHORA
E uma curiosa mistura de quadrilha com a dança do Vilão, explica Carlos Felipe de Melo. "Os pares, ao som da viola, tocada por um violeiro que vai lembrando ou improvisando versos, vão executando passos diferentes. O cavalheiro segura a ponta de um grande lenço, enquanto a dama segura a outra ponta, e durante a coreografia, eles não podem soltar o pano. Com isso, alguns passos tornam-se muito difíceis, mas apresentam, por outro lado, belos momentos coreográficos, como na execução do 'moinho', em que as mãos direitas dos dançadores na roda se entrelaçam formando um eixo, enquanto as esquerdas continuam segurando os lenços. Conhecida em todo o Centro-Oeste, a volta-senhora é, às vezes, dançada com um bastão em vez de lenço. Quando isso acontece, é comum, ao final, os bastões serem entrelaçados. Os dançantes então os abaixam para que o violeiro, literalmente, suba em cima daquele feixe, sem parar de tocar. Eles, então, o levantam no ar, numa bela apoteose" (op. cit., pág. 200).

ENGENHO DE MAROMBA
Realizada em praticamente todo o Centro-Oeste, em especial na região nordeste de M

Olímpia / SP

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